3 de janeiro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Universos interiores e as cicatrizes que a vida nos dá

Pessoas são complicadas. E os relacionamentos, então? Os níveis de complexidade são gigantescos. Ter que lidar com outra pessoa pode parecer simples quando o relacionamento se dá superficialmente mas, a partir do momento em que consideramos as vivências do outro, a coisa pode mudar drasticamente. São muitos os fatores: a criação que receberam dos pais, ambiente em que passaram a infância, a forma como foram ensinados a lidar com os próprios sentimentos e os do próximo… É, cada pessoa possui todo um universo dentro de si, que às vezes falhamos em reconhecer. E como se já não fosse difícil o suficiente ter que entender como lidar com esses universo que cada um de nós carregamos conosco, às vezes a vida ainda dá uma guinada e inventa de fazer com que a gente se apaixone.

Ah, o amor. Borboletas no estômago, pupilas dilatando, mãos suando de nervoso e pernas tremendo só de pensar em encontrar com a pessoa, olhar nos olhos dela… A gente sabe como as emoções ficam à flor da pele quando nos encontramos nesse estado sonhador, que é estar apaixonada. Mas, assim como em todo o tipo de interação humana, quando estamos lidando com alguém por quem sentimos que o coração bate mais forte, muito tem que ser levado em conta. Como bem sabemos, o que somos hoje nada mais é do que um resultado das experiências que vivemos ao longo da vida. Algumas boas, algumas não tão boas, outras que gostaríamos de apagar da memória se fosse possível, mas experiências. Algumas delas nos deixam com os olhos marejados de felicidade, enquanto outras nos dão aquela sensação ruim de vazio, a ponto de não gostarmos nem de querer tocar no assunto.

Então conhecemos uma pessoa por quem sentimos apreço, mas as marcas das nossas experiências passadas não permitem que demos um passo adiante. O medo paralisa, desespera e faz sentir vontade de desistir. Afinal de contas, como alguém pode seguir em frente depois de ter vivido coisas que pra alguns podem não significar muito, mas que te machucaram a ponto de ficar receosa e amedrontada?

A resposta é simples: você carrega, também, um universo dentro de si, e como todo universo, ele possui, além das coisas bonitas de se observar e estudar, coisas destrutivas; mas, como aprendemos com o Big Bang, uma explosão também pode dar origem a algo novo e bonito (ou você acha que ninguém tem problemas?). A parte difícil não é reconhecer que os possui, e sim aceitá-los. Deixar de fingir que as feridinhas não doem e aceitar que elas precisam de cuidado para sararem mais rápido.

Acontece também da gente conhecer pessoas já machucadas e tristes, como filhotes de passarinho que caíram do ninho ao tentar o primeiro voo. Compreender uma experiência ruim que alguém viveu é uma tarefa difícil, mas ouvir e se mostrar disposta a ajudar é sempre um bom primeiro passo. Entender que o tempo e a paciência são os melhores aliados em qualquer tipo de superação de tristezas é importante, e ter consciência de que problemas sempre estão sujeitos a acontecer (mas que não são impossíveis de se contornar) também.

Às vezes, em um momento de reflexão, podemos chegar à conclusão de que algumas feridas já fecharam e não doem mais, mas a cicatriz coça, é feia e incômoda aos olhos. Rola até aquele sentimento de que, por causa dessas cicatrizes, ninguém nunca mais vai se interessar por você ou então aquela vontade não deixar que ninguém se aproxime, com medo de se machucar de novo – mas é importante manter em mente que não há ferida que não se cure, e não há amor que não as suporte.

Quando, em um relacionamento, um dos envolvidos guarda mágoas e traz bagagem emocional de amores passados, seja essa pessoa você ou não, as palavras-chave são:  entender, cuidar e permitir.

O que deve-se fazer quando a sua bagagem, ou a da outra pessoa, parecer pesada demais, primeiramente, é ouvir a si mesma e o que essa dorzinha tem a dizer para entender o que se passa: se foi algo ruim que aconteceu, que criou uma espécie de barreira entre a pessoa e a possibilidade de algo novo, ou se foi algo bom que acabou de forma brusca que agora ela tenta recuperar em futuros relacionamentos, se foi negligência ou alguma das partes não soube amar direito… Tanto faz. O ponto principal é compreender o que se passou.

Depois que entendemos, podemos passar para a manutenção, que é feita aos poucos e diariamente. Obviamente que compreender o que aconteceu não é o suficiente para que saibamos o que deve ser feito para superar, mas como relacionar-se com alguém envolve compartilhar coisas sobre si, conversar e desabafar com a outra pessoa sobre suas conclusões é sempre algo positivo. O cuidado começa a partir do momento em que decidimos que não queremos mais que o medo do passado nos assombre, e é aí que a mudança começa.

O que nos leva à terceira palavra-chave, a mais importante, que é permitir: permitir que a vida nos surpreenda com algo que não esperávamos que fosse bom, permitir que momentos bonitos façam de novo parte do que você ou a outra pessoa entende como relacionamento, e permitir-se também ter a consciência de que viver e lidar com alguém, romanticamente ou não, nunca vai ser sempre do jeito que esperamos e coisas ruins, por quaisquer motivos que sejam, podem acontecer e deixar novas marcas. A parte interessante desse último estágio é justamente saber que, não importa o que aconteça, cada experiência vivida vai contribuir com o enriquecimento do seu universo, e que a probabilidade das explosões se transformarem em possibilidades novas e bonitas é maior do que a probabilidade de que elas se transformem em coisas repetidas e ruins.

Então viva, machuque-se, lave as feridas na torneira da casa da avó e levante-se, pois por mais complicadas que as pessoas possam parecer – e, no caso de algumas, são de verdade –, não há dor que dure para sempre (e existem sempre milhares de Big Bangs apenas esperando para acontecer).

Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

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