22 de novembro de 2015 | Colunas, Música, Se Liga | Texto: | Ilustração:
Vai ter gorda cantando sim e muito! Entrevista com a cantora Tatiana.

Acho que não é mais segredo que um dos meus assuntos favoritos aqui na Capitolina é falar sobre corpo, especialmente sobre ser gorda. Hoje vou fazer um foco com as gordas na música. Pensei nessa pauta vendo uma premiação musical com familiares, a medida que as mulheres subiam no palco todos falavam de suas roupas e veio o comentário “ Nossa, mas a fulana engordou né, como pode? Ela é artista tem que se cuidar! ” Sim como se engordar necessariamente fosse um sinal de descuido, de vexame, porque ser gorda é a pior coisa do mundo e claro, como ela está na mídia, ela “tem que dar o exemplo” e o exemplo é ser magra sempre.

Nossos corpos são constantemente monitorados, porque quem está a nossa volta e quem está na mídia como as cantoras, principalmente as pops, está no olho do furacão porque é olhada por muitos. Se você foge de padrão de beleza é um motivo a mais para falarem que você não pode que “tem que se cuidar” primeiro, antes de querer fazer o que você quer. Para me ajudar a falar melhor desse assunto entrevistei a cantora e minha amiga querida Tatiana. Ela está produzindo seu primeiro EP Putaria & Romance, é gorda e muito ativa nas redes sociais promovendo o amor ao próprio corpo. Vamos conversar sobre essa história toda de ser gorda e fazer música.

Como começou seu envolvimento com música? Existiu algum momento marcante que te fez desejar mais esse caminho?
Meu envolvimento com a música começou desde sempre. Cresci numa casa musical e tive contato com diversos instrumentos desde a infância. Estudei piano durante muitos anos e aprendi violão sozinha, com ajuda do meu pai – que apesar de não ser músico profissional, toca vários instrumentos de ouvido. Na casa dos meus pais sempre teve um quarto de música e eu sempre me senti em casa ali. O estudo de música era uma coisa séria, eu tinha horário para estudar piano todos os dias, mas no fim de semana a casa se abria para os amigos músicos dos meus pais e as festas eram intermináveis. Como o piano é um instrumento difícil de se carregar, acabei aprendendo violão e comecei a cantar para poder participar das farras dos meus pais. Nunca tinha antes cogitado viver de música, talvez por pura rebeldia. Meu pai, ao contrário dos pais das minhas amigas, queria que eu vivesse de música e não estava nem aí para a faculdade que eu ia fazer, ele sempre achou que eu tinha que tocar e cantar. Mas decidi estudar cinema e deixei a música mais de lado, agora é que estou retomando.

Você acredita que existe uma monitoração extrema sobre o corpo de cantoras? Que existe algo estipulado que para fazer sucesso na música você deve ser magra e com o corpo perfeito? Em algum momento você pensou em desistir da carreira na música por ser gorda e não estar dentro desses padrões de beleza impostos?
Acredito que exista uma monitoração no corpo de todas as mulheres e as que costumam aparecer mais na mídia se cobram certamente em excesso em relação a isso. O instrumento de uma cantora é a sua voz, pouco importa o tamanho ou do seu corpo, né? Mas no mundo em que vivemos hoje, se você é uma cantora de sucesso certamente você vai aparecer na televisão, então as pessoas devem se cobrar mais por isso. Na década de 60 e 70, a vibe da música estava mais no teatro, então acho que não existia essa exigência, acho que a televisão formata muito as pessoas, muitas vezes deixando de lado as suas peculiaridades. Claro que eu já me cobrei em relação a isso por ser gorda. Mesmo sendo fã de cantoras gordas como Ella Fitzgerald e Aretha Franklin, por exemplo, a gente tem essa sensação de que precisa ser magra para cantar, pra atuar, para qualquer coisa! Mas acredito que as mulheres estão se empoderando e destruindo esse padrão aos poucos. Eu me lembro da primeira vez que assisti um show da Tulipa Ruiz. Na foto não dava para saber que ela era gorda, mas quando a vi cantando maravilhosa no palco, o meu corpo todo tremeu de emoção. Lembro de ter pensado assim: “Nossa, então quer dizer que eu posso cantar também”. Acredito que quando uma pessoa se liberta, ela liberta muitas outras também. E a Tulipa fez isso para mim.

Você me parece estar super empoderada hoje, mas eu como gorda entendo como isso é difícil, para mim ao menos foi chegar até aqui. Você pode nos contar um pouquinho como foi esse processo para você?
O meu processo de empoderamento começou quando o feminismo entrou na minha vida. E não tem muito tempo não, viu? Uns 4 anos, por aí. Caramba, nunca tinha parado para pensar nisso… 4 anos é pouco tempo e já gerou tanta mudança boa! Bom, para falar a verdade, acho que eu sempre fui feminista sem saber, por exemplo na escola eu ficava revoltada quando os meninos falavam “cheira o meu saco!”. Daí inventei e expressão “cheira meu grêlo” e mandava essa para todos eles, hahaha. Mas foi só há 4 anos que me aprofundei no assunto e estudar o feminismo, ler livros sobre e debater com as amigas e na internet só fortaleceu a minha autoestima e força interior, além de dissolver a culpa sobre comportamentos considerados “inadequados para mulheres” ou a preocupação com o que os outros vão pensar sobre algo que eu queira fazer nesse sentido. Mas o empoderamento com o corpo sendo gorda… isso tem muito pouco tempo e ainda estou em fase de aceitação e amor por ele. É muito difícil crescer numa sociedade que nos ensina a odiar os nossos corpos e na vida adulta aceitá-lo acima do peso que essa sociedade estipulou como “ideal”. Eu não fui uma criança gorda e nem fui uma adolescente gorda, comecei a engordar depois dos 25 anos, já adulta. E mesmo sem ter sofrido o bullying que uma menina gorda sofre na escola, eu sofri bastante. Me sentia feia, inadequada e menos mulher do que as minhas amigas magras. E vivia escondendo o meu corpo, usando casaco em dias de calor, me proibindo de usar biquini ou blusa de alcinha. Um desconforto terrível! Até que um dia, ao entrar num debate no facebook sobre a capa maravilhosa da Ju Romano na revista Elle eu falei: CHEGA! Tirei a roupa que eu estava usando no dia, passei um batom vermelho e tirei várias selfies semi-nua com a barriga exposta. O feedback que recebi no facebook com essa foto me deixou muito feliz e a partir daí eu percebi que precisava falar sobre amor ao corpo.

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Você tem uma música linda que fala sobre amar o seu corpo. Sua relação com seu corpo é fonte de inspiração para suas músicas?
A música sobre o amor ao corpo começou com uma poesia que escrevi em homenagem às meninas que conheci num grupo de facebook que combate a gordofobia. Aliás, eu recomendo muito esses grupos porque eles fortalecem muito a nossa autoestima, são várias mulheres maravilhosas vivendo a mesma coisa que a gente, dando força e apoio sempre que necessário. Depois de muitas conversas no grupo escrevi uma poesia e a melodia, que é muito simples, veio naturalmente. Nesse dia eu postei a música para elas e, quando me dei conta, o vídeo tinha tido vários compartilhamentos. Nesse dia aquela voz falou novamente ao meu ouvido: Tatiana, você precisa falar sobre isso! As minhas músicas já falam naturalmente sobre empoderamento da mulher e liberdade sexual de uma forma leve e divertida, mas agora estou procurando escrever mais sobre amor ao corpo, porque estou vendo que dessa forma eu consigo ajudar muitas mulheres, além de me ajudar também. O empoderamento não existe ainda 100% em mim, eu me empodero junto com as mulheres e aprendo também junto delas. Nós mulheres temos uma força incrível e estou muito feliz de ver essa força em forma de sororidade para todo lado. Para ouvir a música basta clicar aqui

Você está gravando o Putaria & Romance, seu EP, fala um pouquinho dele, como está sendo, quando sai…
O EP Putaria & Romance está previsto para ser lançado em janeiro. Estou muito feliz com esse trabalho! Espero poder libertar muitas mulheres com as minhas músicas!

Você tem um outro projeto chamado Gorda e Zen sobre amar seu corpo, pode nos contar um pouco mais sobre ele?
O Gorda e Zen surgiu dessa minha fase de empoderamento e também com os meus estudos de autoconhecimento e espiritualidade. Estou praticando meditação todos os dias há mais de um ano e isso mudou completamente a minha vida. Acredito que a música e a meditação são as coisas que mais me ajudam nesse processo todo de amar o meu corpo e viver a minha melhor versão. A música me ajuda porque ela vem da alma e quando entro no processo de flow com a música – que é esquecer de tudo no mundo e vibrar só ali nas notas, na letra, na melodia – eu nem sinto o meu corpo. A música é uma conversa da alma, o corpo é apenas mais um instrumento. E a meditação também me ajuda nesse sentido, de me acalmar, de clarear a mente e focar no que realmente importa. A gente vive hoje uma vida muito corrida e a meditação faz um reboot nos pensamentos, no excesso de informação… gosto de dizer que meditar é como limpar os cookies do computador. O Gorda e Zen surgiu para que eu pudesse passar tudo isso que tenho aprendido e que tem me ajudado para outras mulheres. Além dos meus textos no blog, tenho um canal no youtube e uma conta no instagram só para nudes empoderadores. A mesma foto que usei para me libertar após o debate sobre a capa da Ju Romano, serviu de inspiração para muitas outras e não são só fotos numa pegada sexy não! Gosto de postar fotos bem realistas também, expondo as dobrinhas do corpo, as celulites, estrias. Através dessas fotos vou descobrindo aos poucos que sou linda sim, do meu jeitinho e muitas mulheres têm me procurado para dizer que estão aprendendo a se amar também. Até mulheres magras! O que me deixa feliz, mas me choca um pouco também. Mulheres magras não sofrem gordofobia, mas sofrem uma pressão estética terrível também. Portanto, o maior objetivo do Gorda e Zen é promover o amor ao corpo, independente de tamanho, peso ou formato.

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Para fechar você quer dar um recado para nossas leitoras, principalmente as gordas que estão em um momento de dificuldade em amar seu corpo como ele é?
O meu recado é: ame o seu corpo como ele está AGORA. Só existe o agora, por isso ele se chama presente. Quando estamos apegadas ao passado, ficamos deprimidas; quando estamos pensando no futuro, ficamos ansiosas. É preciso focar no presente. Mesmo que você queira emagrecer, mesmo que queira continuar gorda, mesmo que você esteja saudável ou doente, ame o seu corpo. Não podemos esquecer da nossa saúde mental, porque tudo o que acontece dentro da nossa mente afeta o nosso corpo. Pensar positivo, meditar todos os dias e saber que não existe ninguém no mundo igual a gente, cada um tem o seu talento especial! Querer ter o corpo igual ao de outra pessoa, o corpo da tv ou da capa da revista é uma loucura. Cada um tem o seu corpo, o seu jeito, o seu charme. E quando uma mulher se liberta, ela liberta muitas outras! Vamos nos libertar do padrão!

 

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Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

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