8 de janeiro de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Vai ter selfie no museu sim, e se reclamar vai ter mil!

 

“Ai, agora tem fila no museu, o que esse povo quer indo no museu? Eles nunca foram ao museu!”

As filas no museu são o novo “pobre no aeroporto”: “Ai, pobre no aeroporto, agora eu tenho que pegar fila, ficar vendo gente pobre? Não dá, né!”

Parece que estou fazendo analogias baratas? Parecer, parece. Mas, infelizmente, é o que vem acontecendo, apesar de não fazer sentido nenhum. Não consigo entender qual é o grande problema de ter um monte de gente querendo visitar museus. Não parece ótimo? Pessoas querendo ver arte, vivenciar arte, estar perto da arte de museu – não que a arte só esteja no museu, mas também está. Aí dizem “ah, mas essa sede de arte é modinha, algo só pelo rolê, só pela selfie”.

Mas será? Ou será que esse argumento não é só desculpa esfarrapada para demarcar a “gente diferenciada”? Se fosse alguém com cara de estudioso das artes (e nós sabemos bem qual é a cara dos estudiosos de artes em um país em que a arte é tão elitizada), quem iria questionar sua presença? Nós temos o direito de julgar que tipo de arte cada pessoa deve querer absorver, observar, aprender?

Acho de uma maldade sem tamanho demarcar espaços culturais desta maneira, pois não há forma de categorizar sem ter base no preconceito e no elitismo. Quem “deve” e quem “não deve” estar no museu? Como saber quem está lá pela arte e quem não está?

Ok, eu entendo, a dinâmica da selfie o tempo todo às vezes enche o saco. Mas é uma dinâmica nova como um todo, que não existia antes, e é natural que não se saiba lidar sempre com equilíbrio com novas dinâmicas. Às vezes, as fotos podem atrapalhar a experiência de quem ainda não foi à exposição. Às vezes, podem parecer mais importantes do que a obra em si. É chato que se veja as obras apenas através da tela do celular, sem “contemplação”? Pode ser que sim. Mas isso não significa que apenas quem saiba “admirar de verdade” seja digno de ir ao museu. Porque determinar quem sabe admirar e quem não sabe já é um recorte sociocultural e tanto. E porque, se pararmos para pensar, a selfie no museu faz parte de uma proposta de guardar experiências e momentos. Esse é o esquema das selfies hoje em dia, num geral. E, se são momentos importantes, é de se imaginar que as pessoas queiram registrar. Não deixa de ser uma dinâmica interessante.

Não são exatamente essas pessoas quem devemos questionar se agora ir a exposições tornou-se um passeio difícil, seja pela quantidade de pessoas, seja pela impossibilidade de contemplar as obras cada qual à sua forma, entre outras dificuldades. Devemos cobrar então das equipes da área educativa do museu que repensem suas formas de expor arte, e que se questionem se a dinâmica funciona, se o espaço está sendo aproveitado da melhor maneira. É preciso que a função educativa e formadora dos museus não se perca, sim. É preciso que encontremos o equilíbrio na convivência de espaços culturais para que ninguém se sinta atacado, para que uns não atrapalhem os outros e vice-versa. Mas, acima de tudo, devemos dizer, também, que o aumento do público é algo extremamente positivo. A partir dessas premissas, poderemos pensar:

O que o museu significa; o que ele historicamente significou; quem cabia e quem agora vem cabendo no museu; a que serve a arte, afinal?

Este assunto é inteiro complexo e delicado porque diz respeito a fenômenos de registro que são novos para todo mundo. Por isso, ele gera dúvidas, debates e discussões mil. Ainda assim, apesar de todas as problemáticas, sigo pensando: mais chato do que gente tirando selfie do museu, é gente julgando e se achando superior a gente que tira selfie no museu.

Mais chato do que fila no museu, é museu vazio, só com as mesmas pessoas da elite cultural, as mesmas pessoas de sempre.

***

E, para ilustrar, aqui vai uma galeria de fotos das capitolinas no museu:

 

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

  • http://verasaidajanela.blogspot.com.br/ Pedro Saliba

    sim, mil vezes sim!

    talvez essa matéria interesse, saiu no público faz um tempinho: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/entrar-num-museu-e-tirar-uma-selfie-um-novo-olhar-sobre-o-objecto-artistico-1668095

    parabéns pelo trabalho! 🙂

  • Deborah

    interessante seu texto, com algumas ressalvas:
    – a questão do selfie não se restringe ao museu, mas a shows, bares, enfim, qualquer contexto social. tudo bem, é legal, é uma forma de experiência… mas, essa ansiedade excessiva e constante em registrar e compartilhar tudo o tempo todo é questionável. afinal, o registro é realmente o mais relevante?
    – considero essas grandes exposições, que têm atraído grandes públicos, uma boa abertura por parte dos museus, ao propor exposições mais atraentes à todos os público, não especializados, e com grande investimento em divulgação. mas ainda não sei se o espetáculo é a melhor forma de atrair público ao museu.
    – poderia ser, mas não é função das áreas educativas pensar a forma de expor, isso é função dos curadores e decidir que exposições vão entrar na programação dos museus, dos gestores (cobre deles). em geral, não há abertura às áreas educativas para intervirem no formato das exposição. ao educativo sempre cabe adaptar-se a exposição já concebida. mas você também tocou num ponto certo: é função do museu ser educativo e propor instrumentos que facilitem a relação entre o público e as obras/exposições. e isso tem que ser feito (geralmente é) e exigido pelo público.
    – agora, há também restrições físicas: todo mundo quer ver as exposição e, se vierem multidões, não vai caber todo mundo no museu ao mesmo tempo. vai ter fila. não tem milagre de logística que vá impedir isso.

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