16 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Vamos falar sobre transtornos alimentares?
Ilustração: Jordana Andrade

Os alimentos que colocamos dentro de nós têm uma função bem maior do que apenas saciar a nossa fome. A comida funciona como um combustível que nos nutre e dá força, e é essencial para a nossa existência. Algumas pessoas, no entanto, têm uma relação diferente com a comida, seja ela de medo, restrição ou obsessão. Esses padrões são conhecidos como distúrbios alimentares.

Eu me lembro da primeira vez que ouvi esse termo. Tinha por volta de treze anos e as mudanças no meu corpo começavam a se tornar mais evidentes; os seios grandes, as coxas largas, as dobras na barriga e um incômodo gigantesco por não caber nem no jeans, nem nos padrões. Foi quando, então, no consultório de uma endocrinologista, conversando sobre as dietas malucas que eu vinha tentando nos últimos meses, que ela me explicou que o que eu fazia tinha uma relação bem próxima com a anorexia nervosa.

A anorexia é um transtorno que se caracteriza pela diminuição considerável no consumo de alimentos, pela recusa voluntária em comer e por uma preocupação extrema com a quantidade de calorias ingeridas. Junto com a bulimia – ato de comer e depois eliminar o alimento, seja através do vômito ou com a ajuda de laxantes –, esses são os distúrbios alimentares mais comuns, mas não são os únicos.

Muitas pessoas exibem sinais de desordem em relação aos hábitos alimentares, mas não têm ideia de que existe um nome para isso. Contar calorias, restringir a quantidade de comida colocada no prato, se preocupar exageradamente com as informações nutricionais dos alimentos podem ser indícios de que as coisas não vão muito bem. É que a linha entre comer saudável e o começo de um distúrbio alimentar é bastante tênue e o perigo mora nos pequenos detalhes.

Na minha adolescência eu ainda não entendia, mas quando eu comia três pacotes de salgadinho, um bolo de chocolate inteiro e bebia dois litros de refrigerante para me compensar pelo dia horrível ou preencher aquele vazio ou tristeza, eu estava tendo episódios de compulsão alimentar, um distúrbio não muito discutido, mas nem por isso menos comum.

Enquanto a anorexia e a bulimia têm um estigma maior, a compulsão muitas vezes passa batida porque os episódios costumam ser menos recorrentes e vistos como um deslize ou uma “jacada” de fim de semana. Mas o sentimento de culpa e vergonha que aparecem depois das crises de descontrole – e, em muitos casos, o uso de mecanismos para se livrar do excesso ingerido –, não deixam dúvidas de que essa não é uma relação saudável com a comida.

Em geral, as pessoas que sofrem desses distúrbios têm uma fixação com a magreza e com o “corpo ideal”, e nos últimos anos a febre do corpo malhado e das dietas detox também entrou no rol de comportamentos para ficar em alerta.

A ortorexia nervosa, que nada mais é que a fixação por comer direito, ainda não é reconhecida clinicamente como um transtorno alimentar, mas cada vez mais pessoas apresentam sintomas associados a esse termo. Tudo começa como uma inocente tentativa de se alimentar de forma mais saudável, mas muitos se tornam obcecados pela pureza e qualidade do que se ingere. Ao contrário da anorexia e da bulimia, a ortorexia não necessariamente causa má nutrição, mas é muito similar aos demais transtornos alimentares, pois todos se resumem ao fato de uma preocupação extrema com o que se consome.

E foi assim que eu vivi boa parte dos últimos anos, me preocupando demais com os alimentos que eu ingeria, travando uma luta contra o efeito sanfona e tendo uma relação de amor e ódio com a comida. Fiz algumas loucuras para emagrecer e manter o peso, num ciclo desgastante, colocando em risco tanto a minha saúde física quanto mental. E foi só quando eu entendi que esses transtornos são, antes de tudo, problemas emocionais ligados à ansiedade e que precisam ser tratados, é que as coisas começaram a mudar.

Ganhar consciência do que colocamos dentro de nós é o primeiro passo para fazer escolhas melhores. Entender a função de cada alimento, ir à feira procurar frutas e verduras, cozinhar para si mesma e fazer uma hortinha em casa são opções que eu adotei buscando restabelecer uma relação mais amigável com a comida. Mas eu não abro mão do meu querido brigadeiro de colher e nem do meu sorvete depois do almoço, só aprendi a equilibrar tudo isso para viver melhor e, olha, têm me feito muito bem!

Júlia Freitas
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Júlia Freitas, jornalista em busca do mestrado perfeito, se interessa por tantas áreas que não sabe por onde começar. Típico de libriana. Militante afrofeminista e dos movimentos sociais, morou em Nova Iorque e lá estudou de tudo um pouco. Mas o dendê corre na veia e ela voltou pra Bahia. Por enquanto.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Muito interessante :)

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