18 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Vamos parar com isso de conquista x fracasso?
Fracasso-IsadoraM

Lá para meu sétimo período de faculdade eu pensei em desistir. Não aguentava mais ir à aula todos os dias, não aguentava mais a ansiedade que aquilo gerava em mim, não aguentava mais a pressão do meu curso, mas, por experiência própria, já sabia que outros cursos não eram a solução. Com alguma pressão externa e muita ajuda, não desisti – atrasei minha formatura em uns três períodos, mas me formei. Hoje em dia, mesmo feliz em ter feito esse esforço e ter tido todo o apoio para me formar no meu ritmo, ainda fico irritada quando me dou conta de que, se tivesse largado no sétimo período, na prática seria o mesmo de não ter cursado nada. Além do que isso diz sobre o nosso sistema educacional, acho que diz muito sobre uma mentalidade completista, de que ou você termina, ou nem faz sentido começar, e nada ali no meio do caminho, nenhum “quase”, conta.

Nessa lógica, ou você tem a conquista, a vitória, o 100% absoluto, ou você necessariamente falhou, você é um fracasso. O meio-termo não existe, e os passos até uma suposta linha de chegada não são vistos, em si, como conquistas. O problema dessa lógica é que, no fim das contas, ninguém fica satisfeito: se você trabalha em busca de uma linha de chegada e não chega, você sofre, você é visto como menor, você se decepciona; se você chega, o que tem depois daquela linha arbitrária, o que te espera depois da comemoração, se não outra linha arbitrária?

Frustração é minha especialidade, porque quando se é tão megalomaníaca-workaholic-insistente quanto eu, nada é mais normal do que ter que lidar com coisas que não acontecem como o esperado, ou de ter que desistir de coisas legais porque simplesmente não tá dando mais. Tenho, ainda hoje, um certo pânico de desistir – é um resquício dessa onda de FOMO (fear of missing out, ou seja, medo de estar perdendo algo) que dominou minha adolescência –, mas sei que, quando desisto, estou abrindo espaço para outras coisas. Sei que, quando participo de algo até um certo ponto e depois não posso mais, aprendi com o tempo que estive ali. Todas as minhas experiências me ensinam algo, mesmo as que “dão errado” – e por “dão errado”, só quero dizer que elas acabam antes do esperado, diferente do esperado. Como falei lá no começo, sabia que outros cursos não serviam pra mim – sabia porque cheguei a cursar um semestre de comunicação, que achei um tédio profundo; mas esse semestre me trouxe coisas positivas: além de ótimos amigos, eu de fato aprendi alguma coisa acadêmica por lá, pequenas discussões sobre comunicação que se somaram ao resto do conhecimento na minha cabeça. Não achei que valia a pena continuar um curso lá, mas não foi uma total perda de tempo.

Tá aí outro conceito péssimo: perda de tempo. Eu fico rapidamente entediada se não tenho nada pra fazer (sou dessa geração de computadores, disseram que dá nisso), por isso sempre acho algo pra fazer. Se tenho que esperar, leio, ouço um podcast, escrevo; se não tenho NADA comigo (nunca me aconteceu, mas vai que, né?), ativamente penso em coisas que preciso resolver, trabalho textos na minha cabeça, faço um brainstorming criativo que é sempre útil nesse meu estilo de vida de escrita. Se tenho que fazer algo que considero chato, tento aproveitar da melhor forma possível (nem que seja para tirar um cochilo profundo). A ideia de perder tempo, de por alguma razão x minutos/horas/dias/meses/anos da minha vida serem inteiramente inúteis (e não uso útil/inútil só no sentido produtivo da coisa – nunca eu consideraria ficar deitada vendo Netflix algo inútil, por exemplo) me parece inteiramente irreal: como é possível não ter nada, nada, naaaaada, nadinha meeeeesmo, que vale a pena naqueles instantes no seu dia a dia?

É difícil escrever esse texto sem enchê-lo de clichês, mas eu realmente acredito que (outro clichê!) alguns clichês são clichês porque são verdade. E, sinceramente, o que eu mais faço por aqui é destilar clichês motivacionais, porque clichês motivacionais me ajudam à beça na vida. Então venham comigo nessa onda: vamos abraçar esses clichês, aceitar que a jornada importa mais do que o destino, e parar de trabalhar numa eterna dicotomia de conquistas x fracassos. Todo dia é uma conquista, e todas elas importam.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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