19 de agosto de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Vaporwave: tudo o que é sólido se desmancha no ar

Vaporwave é um gênero de música e corrente artística que surge em comunidades online como o Tumblr, reddit e 4chan nos anos 2010 paralelamente ao seapunk, witch house e chillwave. Dessa primeira leva de gêneros intrínsecos à cultura de internet, ele é o óbvio e único sobrevivente. Vai além da nostalgia barata e da discussão exclusivamente estética colocando em xeque as condições da música, da arte e de nós mesmos inseridos na pós-modernidade e no capitalismo tardio.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar.” – MARX, Karl (Manifesto do Partido Comunista, 1848).

Vaporwave faz alusão ao bom e velho Marx e ao conceito de vaporware: um produto que é só anunciado e nunca realmente lançado ao público, instigando a competitividade entre as empresas e o interesse do consumidor. Onda de vapor, esse limiar nebuloso entre existir ou não, real ou virtual, obra de arte ou piada de internet.

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A página sobre vaporwave do Know Your Meme.

Know Your Meme é a Wikipedia dos memes, virais e fenômenos da internet. Vaporwave aparece em 4 entradas, 120 imagens e 34 vídeos.

Como é comum aos fenômenos da internet, o vaporwave vem impregnado de uma ironia característica que se desdobra em todos aspectos da produção, desde a sonoridade até a distribuição. O vaporwave amarra essa condição de produto da cibercultura em um metadiálogo, onde a forma da discussão incorpora o sujeito discutido. Seu trunfo é ser, ao mesmo tempo, meme, arte de pós-internet e provocação sócio-política-econômica.

Minha mãe diz, certíssima, que vaporwave é música ao contrário. Soa como um funk new age smooth jazz de elevador que, depois de engolido pelo computador, ressurge drasticamente lento, derretido, incômodo e cheio de referências roubadas dos videogames, jingles publicitários, hits pop e ficção científica da década de 1980 e 1990. É a resposta ao esgotamento do autoral (tudo já foi feito) e dos direitos autorais (todos infringidos) em um futuro que chegou frustrado. O sample desacelerado de Diana Ross em Floral Shoppe é a voz do futuro do passado:

Macintosh Plus é a expressão máxima do vaporwave e foi produzido pela Ramona “Vektroid” Xavier. GIRL POWER.

As capas de álbum de YouTube, Bandcamp e SoundCloud e toda imagética vaporwave são tão importantes e potentes quanto a sonoridade. Trazem o ideal clássico dos bustos-selfies helênicos, neon sci-fi dos anos 1980, eletrônicos obsoletos dos 1990, paisagens tropicais quase extraterrestres e mármore dos arranha-céus corporativos e shopping centers amalgamados em uma edição pobre e em baixa resolução. Os títulos e pseudônimos navegam entre o anseio por atenção CAPS LOCK e o risco do esquecimento indecifrável do japonês cyberpunk.

Nada disso é uma regra estrita. O vaporwave se desdobra em subgêneros com especificidades estéticas e sonoras. O future funk é, como sugere, funkeado, menos desacelerado e menos ébrio; o mall soft soa como música ambiente de shopping, supermercado ou elevador gravada e reproduzida em má qualidade; vaportrap tem o baixo pesado do trap e assim por diante no vaporhop, vaporpop etc.

A contínua abrangência do gênero fez com que ele deixasse os nichos de origem e trouxe a inevitável crise do mainstream. Os críticos mais fetichistas declararam a morte do vaporwave, acusando os produtores e artistas de abrir mão da essência do gênero em troca de mais ouvintes “casuais” de nostalgia oitentista insignificante ou novas versões intencionalmente inaudíveis de álbuns vaporwave consagrados, o broporwave:

[bandcamp width=100% height=120 album=1907918534 size=large bgcol=ffffff linkcol=0687f5 tracklist=false artwork=small track=2986079044]

Ainda que a própria ideia por trás do gênero seja um descolamento da ideia da criação original e autoral, a quebra de um paradigma é um processo truncado. Talvez o bastardo e quase reacionário broporwave seja o maior indício de que o vaporwave não está morto (apesar das propagandas da MTV), mas sim renovado e mais vanguardista do que nunca: se o vaporwave já é música ao contrário, o antivaporwave do broporwave vira tudo do avesso mais uma vez e inaugura definitivamente a pós-música. Viva a internet.

vaporwave2

“Nada está quebrado no vaporwave”, diz o comentarista do YouTube.

OUÇA

Comece pelo meu favorito, Chuck Person’s Eccojam Vol. 1 do Chuck Person, e continue acatando as sugestões do YouTube (leia os comentários). Ou clique aqui e aqui. E se não for mesmo a sua praia, tente Yung Lean ou Princess Nokia, que não são vaporwave mas estão no mesmo universo.

ASSISTA

Vaporwave: A Brief History, documentário legal e esclarecedor com a linha do tempo do vaporwave. Em inglês e sem legendas. 🙁

JOGUE
SEAQUEST1992, um jogo da #JamForLeelah em homenagem à adolescente trans Leelah Alcorn, que cometeu suicídio depois de ser forçada a tratamentos abusivos de conversão de gênero e sexualidade.

VAPOR 3.0 // Edição especial na rua e ??? ??? :: ???Ç? ???S????? :: 29.08

Sempre tenho ressalvas quanto à cultura virtual transportada para o mundo real (e vice-versa), mas pode ser interessante. Me achem lá e deem “oi”.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

  • Lucas Barata

    Maravilhosa análise! Parabéns pela pesquisa.

  • Nico

    Arrasou! texto mto sensível e artístico ^_^

  • jon jon goufema liames zenbin

    Entre nessa onda! eu já estou nela com meus tres amigos produtores brasucas:Vhs Logos..Crocodylan Music
    e Vandelay industries…yes nos temos o fervo do vapor..lá no youtube

  • Jéssica Duarte

    caraca ein, ficou bom o artigo, parabéns…

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