6 de janeiro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão, Literatura | Texto: | Ilustração: Bárbara Carneiro
Verão do poder com Virginia, Clarissa, Sally e Rezia

Esse mês, na Capitolina, estamos vivendo o #verãodopoder e, na seção de EVP, estamos curtindo as férias da escola. Por isso, resolvi escrever sobre um livro que adoro, que tem a ver com o tema do mês e que pode muito bem ser lido enquanto estamos deitadas na rede da varanda.

O livro se chama Mrs Dalloway, foi escrito por Virginia Woolf e publicado pela primeira vez em 1925. A história se passa em um único dia de junho de 1923 e a protagonista é Clarissa Dalloway que passa o dia arrumando os preparativos de uma festa. Em paralelo, outras histórias se desenrolam.

Ele começa com uma frase que é considerada das mais célebres da literatura: “A senhora Dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores”. Woolf nos apresenta a personagem central em uma atitude ativa que conduz boa parte da obra. A personagem é uma mulher de papel de destaque na sociedade londrina do início do século XX, e sai à rua em busca dos preparativos para a festa que organiza. De uma situação banal de anfitriã, a personagem é construída de forma complexa por seus próprios pensamentos.

Se a gente for falar de como o texto é escrito, rola bastante fluxo de consciência (que é aquele tipo de escrita que parece que a gente tá dentro do pensamento dos personagens, e que a gente encontra bastante em obras de outros escritores, como por exemplo Clarice Lispector). Virginia Woolf escreveu Mrs Dalloway com uns movimentos interessantes, em que a mudança entre um núcleo para o outro ocorre sem grandes rupturas do texto. Então, saímos do ambiente da cidade pelo qual circula Clarissa para que a atenção se foque no casal Smith. Septimus Warren Smith é um ex-veterano da Primeira Guerra Mundial cujos devaneios levam, ao longo do livro, a um diagnóstico desfavorável quanto à sua saúde mental. Ao lado de Septimus sempre está sua esposa, uma mulher nascida na Itália chamada Lucrezia. Distante de sua terra natal, essa personagem feminina angustia-se em silêncio; ao contrário de Clarissa, não está cercada de pessoas e não se atreve a contar suas emoções às pessoas com quem se relaciona. Rezia tem existência própria na medida em que o texto literário expõe seus pensamentos e sensações. Exteriormente, porém, reinaria, na medida do possível, uma tranquilidade aparente.

Outra personagem feminina maravilhosa do livro é Sally Seton. Ela aparece nos pensamentos de Clarissa sobre amor entre mulheres, pela forma como a amiga de juventude rompe com paradigmas da sociedade inglesa. A primeira impressão, de uma jovem sentada no chão e fumando um cigarro, é retomada pelas lembranças de Clarissa Dalloway. A novidade de mulheres se querendo bem na literatura pode ser explicada com outro texto da mesma Virginia. Em Um teto todo seu, ela escreve:

“E mais uma vez vem-me à lembrança, mergulhando em jornais e romances e biografias, que, quando uma mulher fala com mulheres, deve ter algo muito desagradável escondido na manga. As mulheres são duras com as mulheres. As mulheres não gostam das mulheres”.

Poucas linhas depois, escreve Woolf que ela própria frequentemente gosta de mulheres, de sua informalidade, de sua inteireza e de seu anonimato. Para além do beijo que Clarissa e Sally trocaram na juventude, há um sentimento forte que as une:

“A coisa estranha, olhando para trás, era a pureza, a integridade de seu sentimento por Sally. Não era como o sentimento por um homem. Era totalmente desinteressado, e além disso tinha uma qualidade que só podia existir entre mulheres, entre mulheres recém-saídas da adolescência.”

E se me perguntassem se o livro Mrs Dalloway tem uma perspectiva feminista? Saber que a autora é uma mulher interessa bastante nesse caso, e o fato de sua orientação sexual ser bissexual, já que o assunto aparece no texto, justamente na figura da protagonista que dá nome à obra. Já sobre a relação entre homens e mulheres no texto, a gente percebe que rola um descompasso. Enquanto eles estão no mundo da política ou servem ao império britânico nas colônias (no caso, Peter Walsh, ex-pretendente de Clarissa, que volta da Índia), elas são suas esposas e, quando estão na rua, ou estão acompanhadas de seus maridos (como Rezia e Septimus) ou estão fazendo compras (afinal, Mrs Dalloway disse que ela mesma compraria as flores). No entanto, as mulheres alcançam um protagonismo particular na obra por serem seus pensamentos o que conduz a maior parte da narrativa.

Então, quando pensamos se as representações de gênero condizem com a que se esperava na época em que a obra foi escrita, ficamos na dúvida. Afinal, os homens estão no poder e as mulheres cuidam dos assuntos privados; mas, em seus pensamentos, extrapolam as convenções. Sally, por exemplo, na juventude, transgride e é admirada por isso. Tem um casamento convencional, mas, entre os amigos, continua sendo Sally. O grupo de artistas ao qual Virginia Woolf fazia parte, conhecido como “Fração Bloomsbury”, pretendia romper com determinadas convenções sociais que impossibilitavam a expressão de uma verdade na arte. Ao tentar romper com essas pequenas coisas (que pesam bastante na nossa época; imagine naquele começo de século!), expectativas sociais e normas na representação de alguns personagens provavelmente são subvertidas. A inserção de assuntos como distúrbios mentais, questões existenciais e homossexualidade – e em texto de uma mulher escritora – de algum modo aparece como bastante transgressor, né?

Um pouco mais

– O filme As horas apresenta a história de três mulheres em décadas diferentes. Uma delas é a própria Virginia Woolf, interpretada por Nicole Kidman (que ganhou o Oscar por esse papel). O livro Mrs Dalloway é uma clara referência do roteiro (a personagem de Meryl Streep, inclusive, chama-se Clarissa Dalloway).

– Aqui na Capitolina, Virginia já apareceu em alguns textos. Um deles é o “Lendo mulheres em 2014” e outro é o “20 artistas mulheres que o mundo provavelmente nunca considerou mais importantes do que qualquer quadro do Picasso ou desses homens artistas aí”.

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

  • Lilibete Coloriste

    Amo muito esse livro. Amo muito Virginia, que foi uma das primeiras escritoras feministas, sem saber ao certo o que estva fazendo. Tenho um livro sobr ela, Feminism & Art. O capítulo mais legal é The Androgynous Mind.

  • helen

    comprei esse livro, mas acabei dando de presente sem ler. vou colocar na lista das compras 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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