11 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: and | Ilustração:
Viajar sozinha: duas experiências, muitas dicas
Ilustração de Isadora Carangi.

Ilustração de Isadora Carangi.

Quando nós, Taís e Nathalia, conversamos sobre o tema dessa matéria, viajar sozinha, percebemos que passamos por situações parecidas: pais e amigos preocupados com nossas segurança, algum medo, perrengues e, principalmente, a mesma vontade de descobrir novos lugares e pessoas. Viajar sozinha é muitas vezes confundido com um ato solitário, meio arriscado e deprimente, mas nós achamos o contrário, se aventurar por conta própria é um modo de se entregar a novas sensações e experiências. É claro que estar sozinha em um lugar desconhecido é de certa forma se colocar em uma posição mais vulnerável, no entanto, exatamente por isso é uma experiência maravilhosa.

Nathalia: Acho que a Taís concorda comigo que uma das melhores coisas de se viajar sozinha é não só o fato de que se conhece outro país, cidade e pessoas, mas também serve como uma viagem para conhecer melhor a si mesma. Todos os momentos em que você desbrava a cidade com seus próprios pensamentos, acaba-se por entrar em uma jornada de autoconhecimento muito rica para a sua vida.

Taís: Eu não só concordo, como confesso que depois de passar uma madrugada passando mal sozinha em um albergue, chorei no banheiro enquanto falava com minha mãe pelo celular. Eu, que gosto de ser independente, me senti pequena, percebi que preciso, sim, de muitas pessoas e isso foi assustador, mas revelador. Tenho um lema: Perrengue forma caráter. Nesse caso, passar por uma treta fez eu ter consciência de meus limites e isso é tão importante quanto questioná-los.

Estar viajando dentro do seu próprio país sozinha já é muito bom. Entretanto, viajar sozinha em um país diferente, especialmente com uma língua diferente, é muito mais emocionante e desafiador. Todas as lutas para vencer a timidez ou seus próprios medos de se comunicar em outra língua que não é a sua própria, com pessoas que são nativas, dão sempre boas histórias para contar. Além disso, essa ideia de que mulher viajar sozinha é uma cilada e que estamos muito propensas a termos problemas é muito ultrapassada. É impressionante como estar num país diferente, numa cidade diferente, às vezes te traz um senso de segurança muito maior que no seu próprio.

O que nos incentivou a ter essa coragem de viajar por conta própria foi uma vontade de sair da zona de conforto e se permitir ao desconhecido: entrar em um ônibus ou avião, – só você, suas coisinhas e talvez alguma música – e ser tomada por aquela sensação meio alucinante que começa pelo estômago e logo contagia o corpo todo, a liberdade vencendo todos os receios.

Nós incentivamos todas as leitoras a se jogar nessa também e, por isso, selecionamos algumas dicas baseadas em nossas experiências pessoais. Portanto essas são as nossas dicas, conselhos e motivos para se viajar sozinha:

Não tenha medo de sair da zona de conforto

É díficil, no começo, digerir a ideia de que você vai estar num lugar completamente diferente do que você está acostumada, sem ninguém para te amparar, te ouvir ou te abraçar quando você se sentir desesperada com alguma coisa. Mas, por outro lado, imagina o quanto de autosuficiência que se ganha com essa experiência nova. Lidar com as coisas a sua maneira, tendo que fazer escolhas sem depender dos outros, desbravar o lugar que está visitando, desvendar os mapas e descobrir o que dá certo ou dá errado é, definitivamente, uma parte ótima da viagem.

Infelizmente, nós, garotas, em geral temos uma educação que estimula uma constante autobservação e cuidado. Mas não se constrói uma vida evitando riscos, repita comigo o mantra: Perrengue forma caráter. É claro que isso não significa se expor a riscos desnecessários, porque isso é burrice. O real significado desse mantra é se libertar do medo de errar ou de passar por desafios. Quase nada nesse mundo é garantido, logo, não adianta ficar paranóica tentando controlar o que escapa do seu controle ou evitar qualquer coisa que seja nova ou desconhecida.

Esse quadrinho explica lindamente essa ideia (pedimos desculpas porque só encontramos em inglês).

Se já não é, torne-se um ser social

Uma das melhores maneiras de engajar em atividades sociais ao viajar sozinha e ainda se divertir é procurar saídas organizadas pelo seu próprio albergue ou hotel. Muitos albergues fazem walking tours (passeios turísticos de graça, com guias geralmente muito bem informados sobre a cidade) e pub crawls (saídas em grupo para vários pubs, normalmente com uma pequena colaboração monetária do participante, que recebem em cada um dos bares uma bebida de graça). Esses passeios são muito legais e servem também para fazer amigos. Dentro de albergues encontramos indivíduos de muitas nacionalidades, se nos dermos um empurrãozinho e começarmos a conversar com alguns deles, tenho certeza de que vai ser muito enriquecedor conhecer mais sobre cada um deles.

Mas se não conseguir, saiba se entreter sozinha

Tudo bem se você não for uma pessoa extrovertida que consegue fazer amizades facilmente, isso não é um motivo para deixar de viajar sozinha. Mas é bom garantir que mesmo assim estará em boa companhia, não esqueça de colocar na mala livros e revistas. Também é legal levar um diário para escrever suas impressões de viagem. Além disso, música é fundamental, ter uma boa trilha sonora faz toda diferença em uma viagem e nossa playlist dessa edição tá ótima para isso.

Preste atenção aos seus arredores e nas pessoas que o compõem

Muitas vezes, ao prestar atenção no que está acontecendo ao seu redor, pode-se ter uma noção de como agir em determinadas situações. Ao ver algo de estranho ou uma movimentação diferente, conseguimos evitar possíveis assaltos, podemos fugir de alguma confusão que apareça no meio da rua, entre tantas outras coisas. Mas também não fique muito paranoica, esperando algo de ruim acontecer! O legal de viajar é que em meio ao desconhecido ficamos naturalmente mais atentos do que na correria do dia a dia, então percebemos situações, pessoas e lugares. Ser mais perceptivo ao que se passa em volta da gente não é só útil para se proteger, mas também para enxergar o mundo por outras perspectivas.

Diversifique sua rotina de passeios

Além do turismo, faça algo rotineiro seu, só que em outro país. Pode ser uma ida ao cinema, ao mercado, ou mesmo só andar livre na cidade sem rumo. É muito legal descobrir como seria morar na cidade que se está visitando. E, às vezes, esses passeios podem te levar a lugares muito incríveis, como praças, prédios e parques fora do circuito de turismo, que são tão ou mais lindos e interessantes que os turísticos.

Prepare uma farmacinha

Nem sempre podemos encontrar os remédios que estamos habituadas nos lugares onde estamos visitando. É sempre bom levar os remédios básicos para cada um: para dor, para febre, para cólica, para digestão, entre outros. Como eu, Nathalia, tenho sempre problemas relacionados a amigdalite e adenóide, meu kit foi um pouco maior e mais problemático que o normal. Precisei levar antibióticos, que não têm a venda liberada aqui no país. Nesse caso, aconselho uma visita ao seu médico antes de viajar. Ele pode passar uma receita para a compra desses tipos de remédio, ou providenciar uma amostra grátis para que você leve para a viagem. É sempre bom também levar uma receita do seu médico para esses tipos de remédios que não tem o uso tão comum, como antibióticos e antiinflamatórios. Algumas alfândegas pedem para explicar o uso dos medicamentos, e uma receita ou carta do seu médico deixa tudo às claras.

Pesquise bem sobre a hospedagem

Existem vários modos de hospedagem possíveis (e baratos. Independente de qual você escolha, é fundamental se informar sobre sua localização. Primeiramente é bom se certificar se a área é próxima de meios de transportes diversos, se é movimentada e segura. Acho que quando viajamos sozinha é importante se hospedar em locais que te permitam circular facilmente e sem riscos. Além disso, vale a pena pesquisar sobre as facilidades ao redor, estar perto de farmácias, mercados e restaurantes é sempre válido!

Cuidado com a bagagem

Usar um mochilão é uma ótima opção se você for viajar sozinha, eu me sinto mais segura e independente com uma mochila do que com uma mala de rodinhas. Mas só faça isso se você tiver um bom preparo físico ou for capaz de carregar poucas coisas, andar por aí com muito peso nas costas pode ser terrível! Também se certifique de colocar cadeados e identificações em sua bagagem. Outra boa ideia é usar uma doleira (aquelas bolsinhas estranhas que são como pochetes para serem usadas dentro da roupa) para guardar documentos de identificação, dinheiro, cartões e outros objetos de valor. Assim, eles vão estar sempre com você e longe do alcance de possíveis furtos ou até fora de risco de esquecimento.

Não peça ajudas dos seus pais, a não ser que realmente precise da ajuda só deles

Eu, Taís, sou filha única e tenho pais superprotetores, então, quando liguei para minha mãe pedindo o nome do meu remédio que eu tomei quando tive intoxicação alimentar, gerei um pânico terrível que só foi superado quando voltei para seu colinho. Então, fica meu conselho, se você também tem pais muito preocupados, não conte para eles, enquanto viaja, que quase foi roubada ou que está se sentindo febril. Só preocupe seus pais se for algo que eles precisam saber ou que só eles poderão te ajudar. Uma das partes difíceis de se tornar independente é aprender a se virar sozinha, lidar com os riscos e as responsabilidades. Não desespere sua família por sustos pequenos!

Entretanto, se puder, mande sempre um alô para mostrar que está bem e viva. Eu, Nathalia, também sou filha única e acho totalmente aceitável, pelo menos uma vez por dia ou a cada dois dias, avisar aos seus pais, ou qualquer um que conviva com você, que está bem e que a viagem está ótima. Imagine que é possível que eles estejam lhe deixando a vontade para fazer sua viagem, confiando no seu bom senso e na sua responsabilidade, mas isso não exclui o fato de que eles podem estar se sentindo angustiados de estarem longe e cheios de preocupação. Afinal, uma mensagem ou ligação de dois minutos só para dizer que está vivo não faz mal a ninguém. Principalmente nos dias de hoje, em que temos wifi na maioria dos lugares e aplicativos como o Whatsapp e o Skype para tornar nossas vidas mais fáceis.

No final das contas, viajar sozinha pode ser tão interessante ou mais que viajar em grupo. O que importa é a recompensa que toda a experiência vai trazer a você, não só pelo turismo, mas pelas memórias e tudo o mais. Não deixe de fazer nada só por estar sozinha. Se divirta, saia para os lugares que quiser, faça tudo o que quiser fazer. Essa é a maior dica de todas: Vá com tudo, e vá sem medo!

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • Kim Yo Shin

    Gostei muito das suas dicas 😀

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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