21 de novembro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Vida afetiva da mulher negra

“O amor não tem cor”. Embora eu escute essa frase desde muito cedo nunca consegui acreditar na total veracidade dela. Talvez porque, como mulher negra que sou, tenha desde sempre me deparado com ações que mandam essa afirmação por água abaixo.

A mulher negra é desvalorizada em todos os espaços da sociedade. Seja na música, na televisão, no trabalho ou na política, estão sempre nos dizendo que valemos menos, que importamos menos e que somos menos bonitas. Da cultura pop às conversas de mesa de bar, os homens, em especial, estão dizendo, consciente ou inconscientemente, que nós mulheres negras somos menores. E no campo afetivo não é diferente.

A solidão da mulher negra vem sendo amplamente discutida nos últimos tempos, assim como a necessidade de desconstrução de estereótipos ligados a nós e ao nosso comportamento, especialmente amoroso/sexual. Esse processo – embora cada vez mais fortalecido internamente com a ajuda da popularização de aspectos do feminismo negro e dos muitos grupos que se espalham pelas redes sociais-, é muito complexo.

Somos constantemente taxadas com rótulos ligados à hipersexualidade, agressividade e subalternidade, e a exotização e a fetichização dos nossos corpos tem um papel muito pesado na nossa afetividade. Isso acontece desde a época logo após a escravidão, quando o relacionamento dos homens com as mulheres brancas começou a se tornar sinônimo de ascensão social, enquanto que a relação com mulheres negras remetia a sexo fácil, para os brancos, e ao horror da volta à escravidão, para os negros. E no nosso país, uma nação de falsa democracia racial, mas extremamente racista, onde a opressão branca é onipresente e representa o que é bom e positivo e o negro o que é ruim e negativo, têm sido muito difícil quebrar esses clichês.

No relacionamento afrocentrado, aquele formado por um casal negro e empoderado, o convívio pode ser um espaço de crescimento mútuo e que ajuda a fortalecer bastante os envolvidos. Os/As dois/duas geralmente compreendem o que é ser negro no mesmo contexo e o entendimento tem chances maiores de acontecer mais rápido. Já num relacionamento inter-racial é preciso ter a liberdade para discutir a questão de raça e o papel que ela representa na sociedade e nas relações interpessoais.

Esse tipo de relacionamento afetivo, principalmente o formado por uma mulher negra e um home branco, é o mais criticado pela sociedade racista que enxerga nessa miscigenação a derrocada das futuras gerações.

E para a mulher negra, preterida afetivamente tanto pelo homem negro quanto pelo branco, além de também pelas mulheres negras e brancas nos relacionamentos homossexuais, só resta sentir o que a autora e feminista negra bell hooks falou tão bem no seu livro ‘Vivendo de Amor’: “Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor”.

Júlia Freitas
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Júlia Freitas, jornalista em busca do mestrado perfeito, se interessa por tantas áreas que não sabe por onde começar. Típico de libriana. Militante afrofeminista e dos movimentos sociais, morou em Nova Iorque e lá estudou de tudo um pouco. Mas o dendê corre na veia e ela voltou pra Bahia. Por enquanto.

  • Karyna Neves

    Mana, parabéns pelo texto! Também por ser da luta feminista negra e ainda sim conseguir fazer um texto tratando de forma muito clara não somente a questão da solidão da mulher negra mas também falando da delicadeza das relações inter-raciais!!

  • Patricia Cunha

    Olá! Adorei seu texto! Não sou negra, mas sou feminista e estou me inteirando super sobre a realidade da mulher negra no Brasil, sobre reconhecer que infelizmente as brancas têm privilégios (mesmo que não admitam) e que a luta é diária! Bato palma para todas nós, e principalmente para vocês que arrasam! To fazendo minha parte pra desconstruir muita coisa por aqui! Um beijo!

  • Helena

    Júlia, que texto maravilhoso e incrível! <3

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