9 de abril de 2015 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração: Verônica Vilela
A vida é mais que 300 páginas: o que queremos dizer com #VeryRealisticYA

Uns dias atrás, explodiu no subespaço do Twitter a hashtag #VeryRealisticYA, a qual consiste basicamente em várias ideias para um livro YA (jovem adulto) muito realista. Estamos tão acostumadas a ler aquelas histórias do John Green – em que uma garota com alguma doença terminal conhece um cara todo top e eles se apaixonam e têm um romance lindo até a menina morrer – que muitas vezes nos esquecemos que, na vida real, as coisas raramente são assim.

Personagem principal fica vendo o Twitter por horas a fio. Literalmente mais nada acontece.

Personagem principal fica vendo o Twitter por horas a fio. Literalmente mais nada acontece.

Só ouvi uma história própria de um livro YA: uma amiga minha namorou um garoto cuja antiga namorada havia sofrido um acidente de carro e morrido. O garoto tinha fotos e objetos da antiga namorada por todo o quarto e toda semana ia almoçar com os pais dela. Essa foi a única história que de fato se assemelha com um livro do John Green ou do Nicholas Sparks e, nela, minha amiga era uma personagem secundária apenas, que só estava lá para mostrar o desenvolvimento do personagem principal após o trágico fim de seu grande amor. De resto, nunca soube de ninguém que viveu algo digno de literatura YA. Nenhum amigo meu foi símbolo de uma revolução popular, da mesma forma que ninguém que conheço se apaixonou por seu oposto por causa de um trabalho de escola. E aí é que vem a falha dos livros para jovens adultos – e também a raiz da hashtag que surgiu -: as histórias YA, por mais próximas da realidade que aparentam ser, sempre são extremamente fantasiosas.

Não que isso seja um problema: a fantasia é importante para nossas vidas. Sem a imaginação, nosso mundo não passaria de um mero dever. Mas com ela, aquilo que em um momento parece óbvio se torna magia pura em um piscar de olhos. Podemos ser quem quisermos, viver em qual lugar de todos os universos e tudo pode nos acontecer. É porque fugimos de nossas realidades que conseguimos lidar com elas. Falei com calma disso outro dia, no blog da Editora Alpaca. É porque escapamos de nossos mundos – os quais, querendo ou não, sempre serão hostis de forma ou outra – que criamos força para encarar a realidade. Os livros nos proporcionam esse respiro das dificuldades da vida, eles nos acalantam ao mesmo tempo que nos fazem viver aventuras sem igual.

É, portanto, impossível negar a importância de um lugar de escape para nós. Mas a necessidade de sermos representadas é tão grande quanto essa vontade de um outro lugar.

Sempre lemos sobre grandes romances, expedições por terras desconhecidas, revoluções populares etc. Mas não é todo dia que vivemos esse tipo de coisa na vida real. Quantos grandes amores uma pessoa pode ter na vida? O quanto não é custoso (pensando em tempo e dinheiro) sair pelo mundo afora em busca de aventuras? De quantas revoltas uma pessoa pode participar? Quantos sistemas sociais alguém pode ajudar a destruir? Pois é, as respostas não estão de acordo com a quantidade de livros YA que existem por aí sobre esses assuntos.

Garoto entra na escola de magia. Cria débitos esmagadores; gradua; mercado de trabalho para bruxos é horrível. Não faz nada com diploma de bruxo.

Garoto entra na escola de magia. Cria débitos esmagadores; gradua; mercado de trabalho para bruxos é horrível. Não faz nada com diploma de bruxo.

E aí que surge o problema. Passamos nossas vidas inteiras lendo sobre essas histórias inspiradoras e, querendo ou não, acabamos comparando-as com nossas vidas. E, se por um lado, os livros nos inspiram a nos arriscarmos, por outro, acabamos frustradas com as vidas que levamos.

Já deixei de ir em protestos sobre coisas que acreditava porque tinha prova no dia seguinte. Já quebrei a cara ao me apaixonar pelo meu melhor amigo. Já me senti extremamente sozinha e não foi nada bonito ou inspirador, foi só horrível mesmo. Já vivi muitas cenas que poderiam dar um excelente livro YA, mas o que aconteceu foi: absolutamente nada. Porque é assim mesmo, a vida é assim. Não é porque conheci uma pessoa que tinha tudo a ver comigo no aeroporto que a reencontrei anos depois e tivemos um lindo romance. Não é porque cruzei o oceano para ver a pessoa que mais me importava que tivemos quatro dias andando de bicicleta, no sol, enquanto tocava Home. Não é porque fui a atos contra a tarifa que consegui mudar o sistema de transporte público junto com aqueles que ao meu lado protestavam.

Adolescente não lê clássicos ou cita poemas. Vê Supernatural em vez disso.

Adolescente não lê clássicos ou cita poemas. Vê Supernatural em vez disso.

Na verdade, a maioria dos dias são todos iguais. Levantar cedo querendo acordar só daqui a doze horas, tomar muito café, ir pra aula, ter aula, almoço lição de casa, procrastinação, leitura obrigatória, procrastinação, jantar com a família, ver seriados por horas a fio, ficar nas redes sociais, perder a noção do tempo enquanto estava no Tumblr, Twitter ou qualquer que seja o site, dormir no meio da madrugada por causa disso, dormir pouco, levantar cedo querendo acordar só daqui a doze horas ad infinitum. A maioria de nossos dias, contados assim, são bem tediosos e não há nada de errado nisso.

O problema é que aprendemos com os livros que temos que ter essa vida sempre super emocionante, quando a realidade não é assim. E, assim, ficamos desesperadas, acreditamos que está tudo errado conosco só porque não somos aventureiras, conhecemos o mundo todo, temos um amor super maravilhoso, arriscamo-nos em prol de outra(s) pessoa(s). Acabamos ansiando uma vida sempre emocionalmente agitada porque os livros nos dão o exemplo, quando, na verdade, as hashtags já dizem tudo:

Garota educadamente declina ser a face da revolução porque está no terceiro ano do Ensino Médio e tem muita lição de casa.

Garota educadamente declina ser a face da revolução porque está no terceiro ano do Ensino Médio e tem muita lição de casa.

Acontece que nossas vidas são muito mais longas que os livros em que lemos. Nossas histórias não vão acabar daqui a 300 páginas e ninguém vai deixar de se interessar por nós se continuarmos com nossa vida de ficar horas na internet e reclamar da lição de casa que sabemos que não vamos fazer independe da quantidade que for. É crucial que tenhamos momentos de ócio e tédio, até para conseguirmos aproveitar melhor o que de nossas histórias será lembrado. A quantidade de personagens, o tempo em que o enredo se desenrola, a quantidade de temas perpassados por nossas vidas são absurdamente maiores do que as de qualquer livro. Nossas vidas ultrapassam toda e qualquer literatura.

Mas isso não faz com que não seja necessário representar esses momentos também. #VeryRealisticYA é, principalmente, sobre isso: a representatividade de todos os momentos de nossas vidas. Mesmo que possa parecer uma péssima premissa a história de uma garota que ficou seis horas lendo Buzzfeed.

Adolescente lê Buzzfeed por seis horas.

Adolescente lê Buzzfeed por seis horas.

O que pedimos não é o fim da imaginação, mas a inclusão de histórias reais. Histórias com amor, tédio e muita internet.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • itismesomeone

    Esses YAs super utópicos deixam mesmo a desejar…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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