24 de agosto de 2015 | Cinema & TV | Texto: , and | Ilustração: Laura Athayde
Violência Contra a Mulher e a Narrativa

No cinema e televisão, uma das coisas mais comuns a fazerem parte do desenvolvimento de uma personagem feminina é violência sexual. É verdade que a violência sexual é extremamente comum também na vida real — mas por que, exatamente, sua presença é tão grande na ficção? Será que é mesmo só por ser um acontecimento verossímil?

Este tipo de violência na construção de personagens femininas existe em diversos contextos. Um deles diz respeito a crescimento e constituição do caráter de alguma mulher que, ao ser profundamente marcada pela violência cometida contra ela por algum homem, muda bastante a sua personalidade. Outro contexto possível é o de pura e simples vitimização da mulher: quando se quer mostrar o quanto ela sofre, quantos caminhos difíceis ela teve que percorrer e o quanto ela é vítima, normalmente se recorre a estupro. A terceira possibilidade é a simples exploração de um estereótipo que costuma escandalizar, apesar de ser comum, trazendo um tipo de audiência que se baseia na fascinação por violência explícita.

Este último é o caso da série de Game of Thrones (2011), que protagonizou muitas polêmicas devido ao uso de violência contra mulheres. A série da HBO, baseada em uma série de livros escrita por George R.R. Martin, costuma utilizar violência sexual de uma forma completamente indiscriminada e solta no roteiro geral. Muitas das personagens que foram vitimizadas na série não o foram nos livros, e muitos dos efeitos gerados por esse tipo de violência, cuidadosamente elaborados nos livros, são ignorados completamente na série de TV. O efeito é simples: subjugar uma mulher forte, de forma totalmente descontextualizada, pelo puro e simples ato de subjugar uma mulher.

Daenerys, uma das personagens principais, teve uma vida de sofrimento desde o seu nascimento. O grande momento em que o jogo vira pra ela é seu casamento com Drogo, arranjado por seu irmão sem que ela tivesse qualquer dizer sobre isso. Nos livros, Daenerys, apesar de aterrorizada, descobre já na sua noite de núpcias que não teria nada a temer e que sua vida estava mesmo mudada, uma vez que Drogo, contrariando todas as expectativas dela e também de quem lê, é extremamente gentil e diz, em seu vocabulário rudimentar de apenas duas palavras na língua dela, que só haveria sexo se ela quisesse. Ela toma a iniciativa, e este momento é o primeiro em que vemos carinho para com a personagem no livro. Na série, esse momento é tirado dela e já na noite de núpcias existe uma cena brutal de estupro, que não é nem um pouco desenvolvida depois através de traumas ou reações da personagem, como se nunca tivesse existido. Ela, inclusive, se apaixona por Drogo depois, apesar do estupro, e ele é desenvolvido como um personagem bom. Aí, são passadas diversas mensagens bem claras para quem assite: se é no casamento, não é estupro; mulheres podem amar seus estupradores; estupros conjugais não são nem tão graves assim e você supera rápido; e o lugar de mulheres é sendo vítimas mesmo.

A violência contra mulheres não é pra ser entendida como algo comum, normal e que simplesmente acontece. É algo horrível que deve ser tratado com a devida importância. Mas que também não define ninguém.

Quando foi lançada na televisão, quase vinte e cinco anos atrás, Twin Peaks (1990-1991) carregava uma questão muito simples: Who killed Laura Palmer? (Quem matou Laura Palmer?)

A série dirigida por David Lynch contava a história de uma cidade e seus moradores depois que o corpo de Laura Palmer, um adolescente com uma vida aparentemente perfeita, era encontrado. Palmer esbranquiçada, envolta em um plástico na beira de um rio é uma das imagens mais conhecidas da série.

Assim como o Agente Dale Cooper, designado para resolver o mistério, vamos descobrindo uma cidade cheia de mistérios e de personagens que têm muito mais além do que mostram na superfície. A morte de Laura é o incidente que causa o desequilíbrio na narrativa. De um jeito ou de outro, ela afeta cada um dos personagens e os fatos que acontecem em suas vidas depois. Ao longo da série, vamos também descobrindo quem era Laura Palmer, mas não porque talvez estejamos interessados em saber quem era ela, mas tudo isso é uma peça a mais a ser completada para descobrir quem foi seu assassino.

A morte de uma mulher como premissa inicial de uma narrativa não é exclusividade de Twin Peaks, mas um recurso recorrente no cinema e televisão. Sarah Linden (Mireille Enos) tinha tudo empacotado e pronto para deixar Seattle quando o corpo de uma adolescente é encontrado. Então, Rose Larsen se torna a Palmer do seriado The Killing (2011-2014). Linden acaba se envolvendo de tal maneira com o caso, que precisa mudar de planos e lidar com todos os demônios do passado que o caso traz à tona. Twin Peaks é sem dúvida uma das influências de The Killing.

Uma série protagonizada por Gillian Anderson é Arquivo X (1993-2002), que diversas vezes começou com o desparecimento ou morte de alguma mulher ou jovem. E ainda temos a personagem de Samantha Mulder, irmã de Fox Mulder – parceiro de Anderson que formam os protagonistas da série. O que sabemos realmente sobre Samantha além de seu desaparecimento? Durante as nove temporadas da série, sua história vem e volta diversas vezes na série.

Podemos também falar de diversas séries procedurais do tipo C.S.I. (2000-2015) ou NCIS (2003), em que cada episódio se investiga um crime diferente, ou ainda das serializadas True Detective (2014) The Fall (2013), embora a última destaque o caráter misógino dos crimes.

Essas narrativas, apesar de começar com mulheres, não são sobre elas. São sobre seus investigadores, seus assassinos ou sobre as pessoas ao seu redor. Quando se tem um problema de representatividade das mulheres no cinema e televisão é problemático ou quando vemos mulheres repetitivamente sendo mortas como ponto de partida para a narrativa de outros personagens. Que mensagem estamos querendo dar? Que elas têm mais valor mortas do que vivas? Colocamos sempre a mulher no ponto de vítima desses grandes e perversos crimes.

Disposable Women (Mulheres Descartáveis) é um conceito narrativo sobre personagens femininas que sofrem algum tipo de violência para desenvolvimento da narrativa de outro personagem. Por exemplo, uma filha é sequestrada e seu pai é responsável por resgatá-la. Acompanhamos o homem e seus esforços para libertar a filha dos homens malvados que a raptaram. Temos o ponto de vista do pai, a narrativa é sobre ele e seus esforços e acertos para com o sequestro. O amor que ele sente pela filha é a força motora para fazer o que tem de ser feito. O papel das mulheres em tantos casos assim é, simplesmente, servir como objeto para que a história de outra pessoa ou lugar se desenvolva.

Mulheres, mesmo na ficção, são constantemente objetificadas – muitas dessas vezes, através da violência. A violência, que vitimiza tantas mulheres na vida real, quando usada inconsequentemente na ficção só reforça no imaginário coletivo que isso é algo mesmo normal. Precisamos que mulheres parem de ser cristalizadas no lugar de vítimas mesmo em nossos produtos de mídia, porque mulheres são mais do que isso. O cinema e a televisão, são feitos por pessoas e são frequentemente reflexos da sociedade. É importante que exista uma reflexão sobre o que fazemos e como fazemos, sobre as histórias que contamos e as mensagens que passamos ao público.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos