15 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
As violências que sofremos não têm que ser segredo

Alguns silêncios são bons para nós. Outros não. Esses outros são os que nos estagnam, nos mantêm inseguras, alimentam nossas dores e devoram nossa substância. É preciso romper o silêncio, não só por nós mesmas, mas pelo bem-estar das outras mulheres ao nosso redor.

Parece que me refiro a coisas muito abstratas aqui, mas na verdade não. Na verdade, estou falando de coisas bem concretas. A cada cinco minutos, uma mulher é agredida no Brasil. A realidade é dura, e daí para pior. Quantos não são os casos que nem para as estatísticas entram, seja por tratarem de abusos psicológicos mais complexos – e não por isso menos nocivos -, seja pelo medo das mulheres de denunciar a pessoa?

Historicamente foi atribuída às mulheres a esfera do mundo privado e doméstico, enquanto aos homens era reservado todo o universo público, do poder, da política, da economia e do trabalho valorizado. Os homens sempre tiveram voz. Às mulheres, ficou reservado o silêncio, a garganta engasgada, a voz baixa. A violência é um elemento cotidiano nas nossas vidas ainda hoje, porque é estruturante da sociedade em que vivemos. O que quero dizer com isso? Que a violência contra as mulheres não acontece à toa. Ela é mais uma das ferramentas de controle sobre nossos corpos, nossas sexualidades, nossas vidas. A ameaça e o medo doem muito na vida das mulheres, e também são formas de nos excluir (ainda mais) do espaço público.

Por isso, a necessidade de não nos calarmos. Por isso, a necessidade de darmos a devida atenção ao que sentimos, e de nomearmos as violências que sofremos, ainda que muitos digam que são coisas banais, que não é tudo isso, que a culpa foi nossa, que estamos fazendo drama. Não estamos. A violência é uma realidade sim, e não estamos aqui falando só de estupros por desconhecidos que saem da moita. A maioria das mulheres sofrem violência, seja física ou psicológica, de seus companheiros – que pagam de bacana, muitos até dizem que são feministas, mas na verdade são uns trogloditas disfarçados.

O nosso mundo precisa deixar de ver a violência como algo normal. Porque não é. A violência contra as mulheres, o abuso, o controle, todas essas marcas explicitam a desigualdade da nossa sociedade. A violência contra as mulheres não é normal.

Diante disso tudo, é importante que nós mulheres nos coloquemos. Que não deixemos passar. Por mais que doa tocar nas feridas, denunciar é um passo importante para quebrarmos esse ciclo de silêncio, para mostrar a força que nós, mulheres, temos.

Muita coisa mudou nos últimos anos. Lei Maria da Penha, Centros de Referência/Atendimento à mulher, Secretaria de Políticas para as Mulheres, Lei do Feminicídio, todas estas são conquistas nossas. Por outro lado, ainda temos muito o que caminhar, seja na garantia do funcionamento destas políticas, na ampliação de seu atendimento ou na criação de mais políticas, ainda necessárias.
Denunciei, e agora?

Depende. Caso a denúncia seja informal, feita para a frente/coletivo feminista da sua escola ou faculdade, por exemplo, é importante pesar bem as próximas ações, para garantir a sua própria segurança e também para que a denúncia não traga resultados negativos, que vão na contramão daquilo que a gente acredita. O mesmo vale para as denúncias formais, que também são importantes, porque podem garantir alguns encaminhamentos, além de contribuir nos estudos e estatísticas que indicam as realidades das mulheres no nosso país. É bacana estar acompanhada na hora de denunciar e, ao pensar no depois, entender que existem contradições na sociedade em que vivemos: a denúncia é sim muito importante, mas não pode nos fechar os olhos e nos fazer vibrar por coisas absurdas como pena de morte ou as sucessivas violações da polícia militar, do sistema prisional e da nossa justiça como um todo.

Nas últimas semanas, durante as votações da redução da maioridade penal, assistimos a vários políticos de direita defendendo a redução e usando nós, mulheres, como desculpa. “Estupradores mirins, que acabam com a vida das mulheres que amamos, têm mesmo que mofar na cadeia!”. Eu, como feminista, sou contra a redução, contra esse tipo de discurso. É difícil superar essas contradições dentro da sociedade em que vivemos, que tem tantos problemas, em tantas esferas. Por essas e outras é que precisamos denunciar, mas, junto da denúncia, precisamos também pensar coletivamente como lidar com casos assim sem que repitamos o erro do “olho por olho, dente por dente”. No final das contas, a luta pelo fim da violência contra as mulheres tem tudo a ver com a luta para mudar o mundo.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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