Virei adulta!
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O tema de Capitolina deste mês é crescimento. Quando estamos na adolescência fantasiamos muitos sobre o momento final em que levantaremos de manhã e diremos: “sou adulta”. Com isso em mente, algumas meninas se juntaram para dizer o que significou virar, finalmente, adulta.

Mariana Cipolla: Eu não costumo me sentir adulta na maioria do tempo, principalmente porque eu convivo com pessoas que me fazem sentir que eu vivi e fiz tão pouco, que não tem como eu já ser adulta. Em alguns momentos eu me senti velha (não adulta, mas digamos que com uma maturidade que eu não achava que já tinha)… Por exemplo, quando eu estudei coisas que eu sempre achei que só pessoas muito maduras e inteligentes estudavam (ex: trigonometria, física e matemática). Acho que, no geral, conhecimento é algo que eu ligo muito à maturidade/crescimento. Quando eu me imagino adulta, penso em como quero ser uma daquelas professoras e professores que eu atualmente admiro tanto. Penso que, em algum momento, serei eu fazendo ciência, dando aulas, sendo orientadora das pessoas. Hoje, quando olho para mim, me sinto muito jovem e muito longe dessa pessoa adulta que imagino para mim mesma. E isso é mais uma visão que eu tenho minha sendo adulta. As outras pessoas, no geral, me parecem muito adultas quando elas têm um emprego ou quando moram sozinhas…

Carolina Walliter: Virar adulta é/foi/está sendo acrescentar peças no quebra-cabeça que me faz ser quem eu sou. O grande desafio é que esse quebra-cabeça está em constante mutação, das mais sutis às mais radicais e perceptíveis. Assim, crescer é um movimento contínuo e íntimo de colorir nosso autorretrato.

Tornar-me adulta tem aquela parte mais clichezona de assumir responsabilidades financeiras e passar a me sustentar, mas acho que a parte mais difícil (e mais profunda e, talvez, a mais dolorida e gratificante) é galgar níveis de independência emocional: é ficar satisfeita dentro da própria pele sem que, para isso, precise de respaldo e 100% de aprovação daqueles que te criaram. É ficar à vontade com as próprias escolhas e orgulhosa de que “ei, fui eu quem optou por esse caminho”, abraçando tudo o que ele pode trazer.

Dora Leroy: Este ano eu faço 21 anos. Ou seja, daqui a pouco, eu vou ter atingido a maior idade legal na maioria dos países na Terra. O que não mudou desses tempos para cá: a minha cara, as séries que eu vejo, os livros que eu leio, as músicas que ouço, as inseguranças que sinto, o apoio que preciso para ter força para enfrentar grandes e pequenos desafios, a vontade de estar sozinha e aproveitar o tempo comigo mesma, a vontade de ver vídeos de gatinhos, a vontade de ver desenhos animados, desenhar coisas bobas, jogar joguinhos por horas, ver uma aula inteira sem prestar atenção. O que mudou: recebo contas em casa (logo, quando eu preciso levar um comprovante de endereço posso levar no meu próprio nome e não no do meu pai), tenho um cartão de débito, tomei bebida alcoólica sem precisar mostrar RG, comecei a trabalhar e ganhar o meu próprio dinheiro e, mais importante de tudo, percebi que a palavra final, frente a qualquer indecisão na minha vida (e, sendo libriana, vamos combinar que são muitas), é minha. E só minha.

Virar adulto é brabo. A independência pode parecer boa, mas é fácil ficar perdido frente à tanta liberdade. Teoricamente, eu já estaria na categoria adulta, mas às vezes acho que estou naquele momento da pré-adolescência, em que tudo ainda parece uma “brincadeira” e eu posso abandonar esse papel a qualquer momento. Espero um dia me sentir realmente adulta, espero um dia fazer um feijão de dar gosto igual ao da minha mãe, de resolver problemas burocráticos sem pesquisar no Google mil vezes, morar sozinha. Mas a vontade de assistir a vídeos de gatinhos pode ficar pra sempre. E a de ver desenhos animados também.

Brena O’Dwyer: Ser adulta é uma grande ironia. Porque, na real, só existem três diferenças entre ser adolescente e ser adulta. A primeira é que quando você é adolescente você imagina que aquele caos todo que é sua vida vai acalmar e que um dia você vai ter mais controle sobre as coisas. Aí você cresce e percebe que ser adulta é aceitar que é tudo muito caótico mesmo e que as pessoas continuam imaturas e confusas. Quando você percebe isso, aprende a segunda diferença sobre ser adulta, que é: você não necessariamente resolve seus problemas, mas você entende os mecanismos que causam eles e como evitar que eles aconteçam com tanta frequência. A última diferença está no jeito que sua mãe te trata: ela vai continuar achando que um monte de coisas que você faz são bobagens, e provavelmente vai continuar te dizendo isso, mas agora ela não pode fazer mais nada.

Rebecca Raia: Crescer não é fácil – para mim não tem sido. Ainda sinto emoção quando pago todas as contas no dia certo ou quando consigo comer em casa todos os dias da semana em vez de gastar grana comendo fora. Mas, mesmo sendo difícil, é gratificante, porque a independência que vem com o crescimento é libertadora!

Uma das coisas mais legais de crescer foi melhorar meu relacionamento com minha mãe. Conforme foi aumentando minha independência, aprendi a lidar melhor com as coisas que antes me irritavam horrores.

Nunca vou esquecer o dia que me senti mais adulta na vida: comprei um pacote de Yakult, coloquei todos em um copão e bebi tudo de uma vez, contra todas as indicações que ouvi crescendo. Foi delicioso!

Yasmin Lopes: Quando eu era mais nova não via a hora de ser adulta. Dormir tarde, escolher o que vestir, sair de casa a qualquer momento para dar uma volta. OK, consigo fazer tudo isso. Sou considerada adulta? Não. E nem me sinto como uma. Tenho 22 anos e já moro sozinha há um ano e meio. Faço faculdade, vivo com auxílios, uma bolsa e uma pensão alimentícia. Lavo minhas roupas e faço a minha comida. Existe uma certa pressão para que eu faça tudo o que tenha que fazer, mas na verdade esse “tudo” não é o suficiente para que me vejam como adulta – e tudo bem. Minha mãe, que nem sonhava em viver o conforto que eu vivo, já estava casada na minha idade. Ela era adulta desde os catorze anos, quando foi obrigada a trabalhar para ajudar os pais. Conseguiu com que eu não precisasse ser adulta assim tão cedo: sigo o padrão classe média de estar na transição enquanto estuda. Para mim, morar sozinha foi uma das conquistas que mais me fez (e faz) crescer, porém, talvez seja também a mais penosa. Quis tanto me ver independente que até choquei minha mãe. Hoje, de nada me arrependo, mas sei que crescer e me tornar (socialmente) adulta implica em desgarrar, sair, se afastar. E sim, de quem você ama. Lidar com a ausência talvez seja meu maior desafio. Assim como uma das minhas heroínas preferidas, Marjane Satrapi, em Persépolis, descobriu: “a liberdade tem seu preço”.

Taís Bravo: Eu tenho 25 anos e certamente não me sinto mais jovem. Por exemplo, não entendo como as pessoas gastam dinheiro para entrar em festas, quando é muito mais confortável bater papo com os amigos sentadinha e com comida. No entanto, também não tenho muita certeza se sou adulta. Sou péssima com burocracias, sempre fico toda enrolada na entrada do banco, não sei lidar com bancos em geral e estou muito longe de me sustentar financeiramente. Ainda assim, acho que alguma coisa aconteceu durante os meus vinte e poucos anos, algum tipo de revelação, porque no fim das contas, mesmo que eu não seja independente, sou adulta. Devo dizer que crescer não é nada como a gente imagina. Não é horrível – prefiro muito mais meus 25 anos do que meus 19, por exemplo -, mas é completamente diferente do que esperava. A real é que é mais complicado e imprevisível. Me percebi adulta quando entendi que nada nessa vida é garantido, a maioria das pessoas está igualmente confusa e estabilidade é um mito. Em resumo, passei anos esperando o momento em que finalmente ia passar toda a angústia e eu seria uma pessoa bem resolvida com uma vida toda arrumadinha até que saquei que isso não vai acontecer, porque sempre tem algo a ser resolvido. Aos 21 anos tatuei “viver não tem cura”. É bem isso, o desassossego existencial, as tretas românticas e as pressões socioeconômicas vão sempre pintar por aí. Minha mãe e meu pai no alto dos seus 55 anos não têm a vida resolvida. Isso parece muito desgastante e é. Mas também guarda uma tranquilidade e beleza. Paulo Freire diz que os seres humanos são marcados pelo “Inacabado”, o que quer dizer que nossa existência está sempre em construção – o que é muito diferente do progresso em que se alcança um fim imutável. Ser adulta, pra mim, é entender que sei muito pouco e ainda assim preciso continuar. Justamente porque essa não é uma tarefa fácil que me dei conta que precisava cuidar melhor de mim, escolher o que me faz bem e não o que me desgasta, enfim, ser responsável pela minha própria confusão e calmaria. Posso até nunca chegar a esperada fase de estabilidade, desde que conquiste algum prazer e equilíbrio. No fim, acho que ser adulta tem a ver com autonomia para lidar nossa própria ignorância diante dessa vida loca e, assim, conquistar alguma responsabilidade.

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

Yasmin Lopes
  • Coordenadora de Poéticas
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Sociedade

Yasmin, se divide entre a graduação de Terapia Ocupacional e as ~artes~. Nasceu e vive em São Paulo, porém sonha com o mar. Não moraria em uma casa sem plantas, faz dancinhas ridículas no quarto e mantém um caderno quase-secreto de colagens e textos. Se estiver com sua câmera na mão, se basta assim - a sua única possível metade da laranja.

Mariana Cipolla
  • Colaboradora de Ciência e Tecnomania
  • Revisora

Tem 21 anos, mora em São Paulo capital e adora café (mas sem qualquer infinitésimo de açúcar). Não acredita em signo, não gosta de fazer escolhas, tenta se planejar com antecedência e sonha em um dia conseguir terminar de ler todos os livros que tem. Estuda física, e queria que todas as pessoas pudessem se encantar com as maravilhas dessa ciência tanto quanto ela (queria conseguir ser uma boa divulgadora de ciência e/ou professora pra tornar isso um pouco mais possível). Mas acha que a ciência só vai ser completa quando houver mais mulheres cientistas e quando essas não forem estigmatizadas.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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