16 de maio de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
[SÉRIE VISIBILIZAR] Bissexualidade

Existe uma letra na sigla LGBT da qual precisamos falar. B. Você sabe o que significa? Bissexualidade. Você realmente sabe o que significa? Ao mesmo tempo que não se fala sobre o assunto abertamente, se criam muitos estigmas sobre a pessoa bissexual que precisam ser quebrados para que possamos viver livremente as nossas vidas e relações.

Falar de bissexualidade é falar de desejos e relações que não se prendem a um único gênero. As pessoas bissexuais podem se relacionar com alguém do mesmo gênero, do gênero oposto e podem se relacionar também com pessoas que não se identificam com a binaridade. Ou seja, a bissexualidade fala de desejos, interesses e relações entre pessoas, se livrando da limitação de um único gênero binário.

Muita gente não leva a sério a possibilidade de alguém ser bissexual, imagina pensar sobre a bifobia que sofremos! E isso é justamente grande parte dessa opressão. Mais do que qualquer coisa, a luta das pessoas bissexuais é por se fazerem visíveis na sociedade e quebrar os rótulos criados para as suas relações. Indecisão, promiscuidade, infidelidade, objeto sexual. Não é raro ouvir essas palavras quando se escuta sobre bissexualidade.

Em um recente estudo feito pela London School of Hygiene and Tropical Medicine se vê que, hoje, as taxas de transtorno alimentar e automutilação, por exemplo, são maiores para as mulheres bissexuais do que em relação às mulheres lésbicas e ainda maiores do que a média geral da população feminina. O estudo mostra o quanto a saúde mental das mulheres bissexuais se deteriora, fato agravado pela falta total de políticas públicas específicas para essa parte da população e pela bifobia vinda da sociedade de uma forma geral mas, inclusive, do próprio movimento LGBT.

A Comissão de Direitos Humanos de São Francisco construiu o documento intitulado “Bisexual Invisibility: Impacts and Recommendations” (Invisibilidade Bissexual: Impactos e Recomendações) em que mostra o quanto, historicamente, as pessoas bissexuais são invisibilizadas na sociedade, as formas em que a bifobia aparece e como combater essas atitudes. Se você sempre parte do princípio que as pessoas são ou heterossexuais ou homossexuais ou lésbicas, você já está cometendo bifobia e invisibilizando essas pessoas.

Desmistificando algumas opressões sofridas pelas pessoas bissexuais…

“Bissexual não consegue ter compromisso e sempre estará sentindo falta do gênero oposto ao da pessoa com quem está se relacionando. Por isso, há sempre a ameaça da traição ou de ser trocade por outro alguém.” Ter interesse por ambos os gêneros na vida não quer dizer ter a necessidade de relação com ambos os gêneros sempre! Tudo depende do momento, da pessoa e de com quem ela quer estar. Se eu escolhi um relacionamento monogâmico é porque é isso que eu quero e, se a relação dessa forma não funcionar, não é por culpa da bissexualidade.

“Você é bissexual? Relaxa, é só uma fase. Você ainda vai decidir se é hétero ou se ‘vai sair de vez do armário’.” Antes de tudo, aquela pergunta básica: quando mesmo você decidiu ser heterossexual ou homossexual? A bissexualidade não é uma fase, é a forma como a pessoa se identifica e se relaciona com as outras. Não precisamos nos encaixar na heterossexualidade ou na homossexualidade, a nossa sexualidade é a bi. Não é um passatempo.

“Pelo menos você sofre menos opressão, né, porque às vezes você é lésbica/gay, às vezes você é hétero.” A sexualidade de alguém não varia de acordo com a pessoa com quem ela está se relacionando. Uma pessoa bissexual é sempre bissexual, assim como as suas relações. Não, a bifobia não diminui quando se relaciona com uma pessoa do gênero oposto e, muitas vezes, acontece inclusive dentro do relacionamento heterossexual, afetando mais intensamente ainda as mulheres.

“Acho incrível ter uma namorada bissexual’, disse o homem hétero” Se você, homem hétero, acha legal a sua parceira ser bi porque a imagem de duas mulheres juntas é excitante pra você ou porque você vê aí uma oportunidade para uma relação a três, você precisa parar com essa bifobia. Antes de qualquer coisa, é importante entender que não é porque a mulher é bissexual que ela sempre irá querer sexo com ambos os gêneros. Essa objetificação e hipersexualização das mulheres bi só deslegitimam e invisibilizam a nossa sexualidade e a nossa luta.

Esses são só alguns exemplos das balelas que nos atingem todos os dias, poderíamos fazer vários textos só com outras delas. Muitas pessoas bissexuais só se entendem e assumem desta forma muito tempo depois de se questionar e duvidar, ao se aproximar de algum espaço seguro que lhe diga que ela pode, sim, gostar de mais de um gênero. E esse é só mais um reflexo do quanto a nossa vida é invisibilizada e oprimida, afinal, passamos muito tempo das nossas vidas tentando nos encaixar nas pré-determinações disponíveis pela sociedade, quando poderíamos logo nos encontrar em quem realmente somos. Ser bissexual não é uma dúvida ou um problema e, por isso, a bifobia também é real. Existem demandas específicas para essa luta e, por elas, continuaremos buscando espaço e voz.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

  • Maria Leão

    Belindinha, ô texto chei de amor nesse maio tão difícil pras pessoas bis! <3

    • Isabela Rapizo Peccini

      Maria, querida! Muita força e amor pra nós <3

  • Pingback: Visibilizar: demissexualidade. - Capitolina()

  • jéssica gabrielle lima

    que texto maravilhoso! <3

  • Rafaela

    Uau, que texto! Estive procurando muito sobre a bissexualidade para entender melhor como amiges se sentem e quero cada vez mais a liberdade humana, nada de qualquer tipo de preconceito, só amor de verdade. <3

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