3 de agosto de 2015 | Edição #17 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Vitamina de abacate ou as influências culturais no nosso prato

“-Se chama chip butty”, disse o senhor irlandês, “e é um sanduíche inventado pelas classes trabalhadoras para ser comido rápido e encher o estômago, por causa da quantidade de gordura.” E abocanhou duas fatias de pão branco, fritas com uma camada de meio centímetro de manteiga, recheadas com nada mais nada menos do que as nossas queridas batatas fritas. Minha cara, um misto de espanto e ojeriza, devia ser muito semelhante a que fiz quando fui amigavelmente forçada* a comer uma porção inteira de chorizo (uma linguiça bem escura, feita de sangue de porco coagulado) e um pedaço de bife acebolado, em uma fria e chuvosa noite de natal, por uma família irlandesa inteira, poucos meses depois de eu me tornar vegetariana – e sim, eles tinham conhecimento disso, mas para muitas famílias irlandesas e alemãs ser vegetariano significa não comer peixe ou porco. E isso certamente aconteceria com uma vegetariana em um domingo de manhã na Bavária, parte sul da Alemanha: ela teria* de comer às oito da manhã uma rica porção de pretzels assados, linguiça branca e um copo bem grande de cerveja sem gelo, para #encerrarostrabalhos da semana.

Abacate como doce, omelete como salgado, cenoura no bolo e mandioca em tudo (mandioca frita! Farofa! Tapioca!! Pão de queijo!!!!) faria qualquer pessoa de fora se assustar com os nossos hábitos. Consigo imaginar até a lágrima no olho esquerdo quando veem um espeto repleto de pequenos corações de galinha (“mas é uma galinha pra cada coraçãozinho?!”), ou quando conto que uma vez a minha mãe comeu carne de lagarto achando que era a parte do boi chamada lagarto. Deve ser a mesma reação que temos quando ouvimos sobre rituais sagrados no Peru, em que mulheres andinas preparam montanhas de porquinhos-da-índia assados com limão, ou quando comemos Pulparindo, uma barrinha de tamarindo, com preparo semelhante à nossa goiabada, mas que também tem sal e pimenta junto (você leu certo – tamarindo, açúcar, bastante sal e pimenta), e que é bastante comum em lojas mexicanas.

Mas por que existe essa diferença tão louca entre os hábitos alimentares das pessoas ao redor do mundo?

A causa mais simples e imediata é a questão climática – não dá pra fazer crescer manga em um quintal na Suécia, ou pra comprar uma caixinha de physalis por menos de vinte reais em um mercado brasileiro. Então certos alimentos acabam virando a “marca registrada” de alguns países, porque o clima não permite que muito mais coisa cresça ali na área, como a batata na Inglaterra ou o repolho na Alemanha (ou em basicamente qualquer país frio), ou até mesmo a nossa mandioca, que só existe na América do Sul e no continente africano.

Depois, entra na jogada a questão cultural, que em muitas vezes é guiada pela religião – no judaísmo e no islamismo, por exemplo, não se pode comer carne de porco. E isso começou porque a carne suína tem uma alta incidência de doenças, se não for cozida direito, e que forma melhor de controlar uma doença senão pela palavra divina?
Por último, devemos considerar a tradição, que também é ligada à cultura. É difícil saber o que faz com que os japoneses coloquem açúcar no omelete, mas faz sentido quando se prova a comida desse país e se percebe que todos os pratos têm um sabor mais suave, diferentemente da culinária indiana, e o ovo doce acaba “casando” com o restante.

Como você pode ter percebido, é difícil criar padrões universais de como os nossos alimentos básicos devem ser preparados e combinados, porque há muitos fatores envolvidos nos hábitos alimentares de cada país, e muitas vezes eles mudam até de região pra região, como quando a nossa colaboradora, Georgia, disse no vídeo do mês que é fanática pelo caldinho de sururu, típico do Nordeste, e que é rejeitado & inexistente onde ela mora, no Rio.

O importante é provar de tudo, respeitar restrições alheias e comer muito brigadeiro com paçoca. #ficaadica

*Forçada aqui significa “coisas que eu jamais consideraria passar pela minha linda boquinha se não fosse pela falta de educação e respeito aos meus anfitriões”.

Nicole Ranieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Vlogger

Nicole é Paulista de 22 anos, mas mora em todos os lugares e pertence a lugar nenhum. Estuda administração com foco em exportação mas é gente boa, não gosta de tomate mas é uma pessoa do bem, curte uma coisinha mal feita e não recusa jamais uma xicara de chá verde. Se fosse uma pizza, Nicole seria meia espinafre, meia cogumelo.

  • Patricia Cunha

    A pessoa que não tem facebook pra comentar (se eu entrasse pelo seu não faria sentido) comenta aqui mesmo! hahaha!
    Eu lembro da sua cara me contando do Natal com a família Irish que não “compreende” o que é ser vegetariano! E graças a senhorita (e ao fato da carne boa ser bem cara na Irlanda) eu hoje me considero vegetariana em uma família carnívora (onde eu também era) e descobri que gosto de folhas (digo, alface)! Viva a diversidade e o respeito as pessoas. (mas se fosse eu, acho que ia na padaria comer pão nesse dia ai) hahaha! Adorei seu texto pra variar pikachu! Beijos!

    *p.s.: O site ta lindo meninas!

  • Pingback: As cozinhas do mundo - Capitolina()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos