10 de fevereiro de 2015 | Ano 1, Edição #11 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Vivendo numa família religiosa… ou não

Segundo o Cesno de 2010 – que é uma grande pesquisa para saber mais sobre a população Brasileira, a maior parte da população segue a doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana, seguida pelas igrejas Evangélicas e pouco mais de 15 milhões de brasileiros declaram não ter religião ou serem agnósticos. Sendo assim, a probabilidade de crescer em uma família que tenha uma religião definida é maior do que crescer sem religião.

Nem sempre isso é fácil, já que acreditar em alguma coisa vai bem mais além do que crescer com certos costumes. Algumas pessoas vem de famílias religiosas, mas nunca desenvolvem vontade de seguir as mesmas doutrinas, outras sentem a necessidade de ter uma religião ou espiritualidade, mesmo que aquilo nunca tenha feito parte de sua vida. Independente do que cada um acha melhor para si, respeito e tolerância são importantes. Entender que sua religião, ou falta dela, não te faz melhor nem pior do que as outras pessoas é importante e extremamente necessário. Apesar de muitas pessoas alegarem cometer crimes em nome de Deus, as consequências sofridas por esses eventos são vividas por pessoas reais, é tirar do plano espiritual e individual uma coisa e de um certo modo punir outros por suas diferenças.

Aqui na Capitolina acreditamos na pluralidade de pessoas, de jeitos e pensamentos, então juntamos alguns depoimentos das nossas colaboradoras e pedimos para que elas falassem um pouco da relação delas com a religião e suas famílias. Sintam-se à vontade para compartilhar suas próprias experiências nos comentários.

Debora Albu – Desde sempre vivi e cresci dentro de uma comunidade religiosa: a judaica. Isso nunca ficou restrito ao campo da crença em si, mas sim, em diversos âmbitos: educação, amigos, família, hobbies. Estudei durante toda a infância e adolescência em uma escola judaica. Isso significou não só o contato com os ritos religiosos em si, mas também que aprendi muito sobre cultura e história judaicas, além de aprender hebraico. Isso me possibilitou ter um contato tão grande com essa parte do judaísmo que fez com que eu mesma escolhesse me envolver ainda mais com a comunidade judaica. Eu poderia ter optado por não me envolver ou mesmo não gostar, mas acredito em muito da filosofia judaica e, por isso, não foi ruim esse envolvimento de total imersão.

Enquanto adolescente, participei de um movimento juvenil judaico, em que tinha atividades toda semana por meio de educação não formal, ou seja, dinâmicas, brincadeiras, rodas de conversa, sobre diversos temas além do judaísmo, como política, Direitos Humanos, meio ambiente. Conforme cresci, me tornei monitora nesse movimento e passei a preparar essas atividades, além de colônias de férias que aconteciam duas vezes por ano.

Além disso, desde pequena também danço em grupos dentro e fora da escola. Até hoje pratico dança israeli, um estilo de dança folclórica específico da comunidade judaica e que foi se misturando a outros diversos estilos, conforme os judeus migraram durante os anos. Nesse estilo, há muitas influências de países do Oriente Médio, da África e da Europa, locais em que as comunidades judaicas se estabeleceram ao longo da história.

Estar nesses ambientes durante quase todos os dias da semana me tornou uma pessoa muito ativa dentro da comunidade judaica. Todavia, tem alguns pontos negativos nisso: as pessoas começam a ter algumas expectativas sobre você e sobre a forma que você se comporta dentro desse ambiente. É muito importante que viver a religião e os outros aspectos dessa, como cultura e língua, seja escolha sua e não imposta por familiares ou amigos ou mesmo parceiros ou parceiras. Eu, por exemplo, não concordo com muitos pontos da religião judaica e os questiono, buscando adaptá-los à minha forma de ver o mundo. Viver dentro de uma comunidade religiosa não é se colocar dentro de uma caixa, mas sim, poder explorar e seguir aquilo que acredita.

Natália Lobo – O meu núcleo familiar – pai, mãe e irmão – é todo composto por pessoas sem religião e, por muito tempo, isso foi uma coisa bem confusa na minha cabeça. Às vezes, na escola (que não era uma escola religiosa, teoricamente) eu tinha que orar com todo mundo no pátio, também rezava na casa da minha vó, e cheguei a ir à missa umas duas vezes com ela. Mesmo assim, sempre foi bem claro para mim que Deus não existia. Eu encarava tudo aquilo como uma tradição que as pessoas seguiam, e que eu estava acompanhando elas só porque elas me convidavam pra fazê-lo, mas aquilo não tinha peso ideológico ou sentimental algum. Eu não fiz catequese nem primeira comunhão, eu não pedia “benção” para ninguém mais velho do que, eu não respondia com “amém” quando me falavam “Deus te abençoe”, simplesmente porque meus pais nunca me ensinaram a fazer nada disso. Com o tempo, eu fui percebendo que a religião que eu não tinha era bem importante para a maioria das pessoas – e, quando eu digo “A” religião, é porque eu só convivi com gente católica mesmo, e que o fato de eu não tê-la gerava estranhamento e, às vezes, um pouco de desconfiança.

Eu até me interessei pelo budismo e pela umbanda, um tempo depois, mas nunca cheguei a frequentar templos ou terreiros, e continuo sendo uma pessoa sem religião até hoje. Apesar de tudo ter sido muito confuso na minha infância, eu gosto da forma igualitária que eu vejo todas as religiões hoje, apesar de ser muito afetada pelo catolicismo – afinal, eu comemoro a Páscoa e o Natal, eu sou muito atingida pelo moralismo cristão do meu cotidiano, moramos num Brasil de imensa maioria católica, enfim.

Também gosto de ter crescido livre da necessidade de seguir alguma religião, afinal, é muito raro que pais não imponham suas religiões aos seus filhos. Por mais que meus pais fossem ateus, eles não se importariam (e sempre deixaram isso bem claro) se eu não quisesse ser como eles, o que era bem libertador e me permitiu conhecer um pouco de cada uma sem culpa, o que foi rico até para o meu conhecimento histórico, e para que eu me tornasse alguém minimamente tolerante com todo mundo, neste aspecto.

Apesar da minha infância e adolescência terem sido um pouco anormais por causa disso, ninguém nunca chegou a me agredir ou se afastar de mim por este fato. Já tive amigos evangélicos que disseram que a convivência comigo foi rica para que eles descontruíssem o estigma que tinham de pessoas ateístas (que elas não tinham amor no coração, que eram ruins, etc.), e para perceberem que a religião não define a conduta de ninguém. No final, eu sou grata por ter crescido sem algumas estigmas que o catolicismo às vezes coloca na cabeça das pessoas (como a homofobia, o machismo, a perseguição das religiões de matriz africana), e que eu não concordo de forma alguma. Não que todo mundo que cresça em lares católicos compactue com isso, mas acho que eles passam por um trabalho de “desconstrução” mais árduo que o meu.

Natasha Ferla – Cresci em uma família católica e sempre estudei em escola católica, então a religião sempre esteve presente em casa e na escola – que são os dois principais ambientes quando se é criança e adolescente. Então quer dizer que, mesmo que eu não saiba rezar de fato, isso me foi ensinado e foi praticado muitas vezes na escola em novenas, antes das aulas ou qualquer ocasião que precisasse. Trabalhávamos a Campanha da Fraternidade, o Mês das Vocações (que é outubro, devo lembrar porque é o mesmo mês que eu faço aniversário), a Páscoa, o Natal e todos os feriados e temas religiosos. Mas, apesar de ter crescido nesse ambiente, ele nunca fez sentido pra mim, não sei se pela imposição (convenhamos, não temos muitas escolhas nas escolas) ou pelo simples fato de não acreditar. Sempre convivi pouco com pessoas de outras religiões e também nunca me interessei por outros dogmas ou espiritualidade em geral. Mesmo as coisas não fazendo sentido, eu ainda lido com as comemorações religiosas, que são importantes para a minha família – que é de descendência italiana e não consegue imaginar uma vida sem religião –, mas me recuso e ir a missas ou outras celebrações. Se hoje eu questiono o patriarcado e as relações de poder no mundo, tudo começou com meus questionamentos religiosos e todas aquelas histórias que eu deveria acreditar mas que sempre me soaram estranhas.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos