29 de maio de 2016 | Edição #26 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Vivendo outras gerações
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Quando eu era adolescente meu filme favorito era Dirty Dancing. Foi lançado em 1987 eu não era nem nascida, mas ele passava na Sessão da Tarde constantemente e me fisgou. Eu tentava imitar os passos de Baby no quarto, era apaixonada pelo Patrick Swayze e o fato de o filme ter quase quinze anos não me incomodava nem um pouco. Minha prima é sete anos mais nova que eu, temos gostos muito parecidos e comecei a indicar para ela séries que via na minha adolescência. Ela se apaixonou por Gilmore Girls, Dawson’s Creek e várias outras que já tinham acabado de ser exibidas, faziam anos. Estou contando essas duas histórias porque eu acho muito impressionante como às vezes nos envolvemos tanto com uma narrativa que não importa em que época ela é direcionada e acabamos nos perdendo no tempo também.

Filmes e séries são retratos de seu tempo. Além de figurino, como determinados assuntos são tratados, a linguagem tudo isso são reflexos de como a sociedade se encontra naquele momento. Mesmo em filmes de época ou históricos podemos perceber isso. Por exemplo um filme produzido nos anos 1970 que se passa na época medieval é completamente diferente de um filme produzido atualmente que se passa nos tempos atuais. Logo um filme ou uma série que consegue atravessar gerações e pular essa barreira do tempo se torna um clássico. Isso pode acontecer por diversos motivos, geralmente quando toca nos chamados “temas universais” tem maiores chances. E vou além, um dos maiores temas universais para mim é adolescência.

Crescer não é fácil e todos passamos por isso. Claro que todo mundo tem sua própria realidade e ninguém cresce igual; inclusive se temos uma falta de representatividade muito forte no mundo do entretenimento. Porém existe uma vulnerabilidade inerente a ser adolescente, um sentimento de estar perdido e não saber direito o que está fazendo e para onde estar indo. Acho que por isso filmes que retratam esse período têm mais facilidade de atravessar barreiras do tempo. Quando somos adolescentes só não queremos nos sentir sozinhos, então não importa muito em que época aquele personagem está vivendo ou em que momento ele foi criado, se ele está passando por algo que eu estou passando ou pelo menos similar de alguma forma eu vou me identificar. Outro fator importante é o final feliz. Em muitas dessas histórias, apesar dos diversos altos e baixos, no final as coisas se resolvem de alguma forma, principalmente se pensarmos em filmes mais antigos. Nessa época de confusões e incertezas ver algo dando certo, ter essa esperança de que tudo vai ficar bem é reconfortante e aquece o coração.

Justamente por estar passando por esse momento tão complicado da vida, quando adolescentes se apegam a algo, se identificam com alguma coisa, eles amam aquilo de verdade. O que é lindo e mágico. A força e o conforto do fandom está todo ai. Agora por outro lado, uma coisa curiosa e perigosa de certa forma que também acontece quando nos apegamos a filmes e séries de outra época é sentir que nascemos no momento errado. Às vezes estamos tão apegados a uma história ou a um personagem que tudo naquele universo parece incrível. Uma série que estou revendo agora e que eu amava quando era adolescente é Barrados no baile (Beverly Hills, 90210). A série estreou no início dos anos 1990 quando eu era um bebê. Isso não me impediu de querer ser melhor amiga de Brenda, a protagonista. Só que provavelmente se fosse adolescente nessa época minha vida não seria igual a deles e eu nem acharia ela tão interessante assim. Idealizamos esses mundos e essa época e é aí que mora o perigo. Acabamos usando essas vidas fictícias como referência de nossas próprias e esquecemos que por mais que seja um tanto calcadas na realidade, essas histórias são de ficção e a vida real é literalmente outra história.

Resgatar filmes e séries antigas é bem legal e interessante. Podemos sim achar nosso personagem favorito e uma história que fale tudo que estamos sentindo lá no meio dos filmes que sua mãe via quando tinha a sua idade. Isso é mágico e é incrível. Inclusive pode ser um assunto em comum para conversar com pais e tios e perceber por mais que pareça estranho adultos também podem compartilhar das mesmas experiências que você passa ou passou e se identificar, com a mesma coisa que você se identifica. Só precisamos ter em mente que nenhuma vida é melhor que a sua, justamente por ela ser real e ser a sua, por mais difícil que seja acreditar nisso às vezes. Agora tira a poeira dessas fitas de video cassete e vá viajar no tempo com esses filmes todos.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.