4 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
Você não é louca: todo mundo precisa de ajuda
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Se vocês acompanham meus textos aqui na Capitolina, talvez já saibam que eu faço terapia há uns anos. Mais especificamente, comecei em 2007, com 16 anos – hoje, aos 23, continuo tendo encontros semanais com a mesma terapeuta. A razão pela qual comecei a frequentar o consultório – e pela qual procurei outras ajudas em outros momentos, desde mais encontros por semana até medicamentos – é que, em algum momento, não estava dando conta da minha vida sozinha.

Ao longo dos anos, tive algumas crises depressivas e de ansiedade. Meus sintomas incluíam irritabilidade, apatia, exaustão constante, vontade de chorar por qualquer coisa, tendência a afastar pessoas próximas, falta de apetite, vontade de comer tudo que passava pela minha frente, muita insônia, falta de ar em momentos de estresse e pavor paralisante de fazer coisas rotineiras como sair de casa, pegar um ônibus ou ir à aula. Durante um bom tempo segurei a onda, respirei fundo, aguentei, chorei à beça, mas consegui deixar passar. Mas em 2007 estava difícil, o choro estava demais, o cansaço emocional também, e, aconselhada pelos meus pais, fui atrás de terapia.

Meus pais tinham me sugerido fazer terapia algumas vezes antes. Minha avó é psicóloga, todos da minha família são muito pró-terapia, e eles viam que eu estava mal e que precisava de ajuda além da que eles podiam me oferecer – precisava de ajuda profissional. Eu, mesmo criada neste ambiente de apoio e que sempre naturalizou terapia como algo para todos que quisessem ajuda, fui relutante. Porque, para mim, aceitar terapia significava aceitar que eu estava doente. Na verdade, pior que isso: aceitar terapia significava que eu estava “louca”; que eu tinha um problema, que eu era fraca, que minha cabeça não funcionava como deveria, que eu era desequilibrada, que eu era que nem essas imagens de gente deprimida que a gente vê na ficção. Porque, para mim, existia gente “normal” e depressão nível Garota, Interrompida. Qualquer coisa ali no meio? Era pra respirar fundo e aguentar, ter essa coisa que as pessoas chamam de força.

Mas não estava dando. Eu não aguentava o colégio direito, não aguentava estar em família direito, não aguentava meus amigos direito. Quando em grupos, chorava, brigava com as pessoas, queria voltar para o canto escuro do meu quarto logo depois de chegar numa festa. Quando sozinha, um medo paralisante me invadia, e cada hora da noite até o dia clarear era um pequeno pesadelo. Era hora de aceitar que eu precisava mesmo de ajuda. E, começando a terapia, passei a desconstruir todos esses mitos na minha cabeça: eu não sou fraca, eu não sou errada. Eu sou, tecnicamente, desequilibrada (mas, sejamos honestos, quem não é?) – e a terapia, em meio a outros mecanismos de apoio que desenvolvi com a ajuda da terapeuta, me equilibra. Eu tenho, sim, crises de doença – e vou ao médico e me cuido, da mesma forma que todos fazemos quando temos doenças mais socialmente aceitas, sabe, as que são mais físicas do que psicológicas (já viu alguém com vergonha de ter que tomar remédio pra gripe?). Eu não sou que nem as garotas de Garota, Interrompida, mas não sou tão diferente assim: nenhum de nós é.

Nos sete anos desde então, aprendi muitas coisas sobre mim mesma, e tive ajuda especializada para poder encontrar métodos de equilíbrio e redes de apoio que me ajudam a me manter estável e saudável. Aprendi, e ainda aprendo, a entender, desconstruir e superar medos, bloqueios e traumas. Aprendi, inclusive, que não há nada de errado em não dar conta de tudo; que não há nada de errado em precisar de ajuda, para o que quer que seja; que não há nada de errado em reconhecer e admitir seus limites e dificuldades. Aprendi, também, que tratamentos psicológicos e psiquiátricos funcionam de formas diferentes para pessoas diferentes (assim como tudo quanto é tratamento médico), que às vezes encontrar o melhor terapeuta é um processo árduo, que às vezes teu terapeuta que foi ótimo por muito tempo não está sendo o melhor para o momento, que remédios são ajustados e reajustados com frequência, que é importante se manter ciente de seus próprios ciclos para poder pedir ajuda quando necessário, e que não dá para entrar na terapia esperando resultados mágicos e imediatos ou uma data para receber alta. Mas, em toda sinceridade: se você está se sentindo fora do controle da sua própria vida, se não está dando conta, se tem tido sintomas de depressão, ansiedade, transtornos alimentares ou qualquer outro transtorno, se sua família e amigos estão preocupados com você, ou se, por qualquer outra razão, ao ler este texto se sentiu identificada, não hesite em procurar ajuda.*

* Se você precisar de ajuda mas não tiver acesso a terapia por razões financeiras ou geográficas, o CVV pode te ajudar por chat ou telefone. Além disso, universidades frequentemente oferecem serviços de terapia gratuitos ou por valores simbólicos, e não só para estudantes.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • Cristina Parga

    <3 adorei Sofia <3 Parabéns! Se todos nós tratássemos os problemas psicológicos/psiquiátricos como tratamos as doenças físicas – com seriedade, respeito e cuidado – não haveria estigma, mais pessoas procurariam ajuda sem receio de ser classificada como louca, e o mundo seria um lugar bem melhor:)

  • Ana

    Perfeito! É isso aí. Terapia é suporte. É um espelho que reflete de volta de forma “interpretada” por alguém com distanciamento e experiência o que você mesma passou para o terapeuta em suas consultas.

  • http://ninagaldina.tumblr.com/ Nina Galdina

    Eu acabei de compartilhar esse texto e olha: a Capitolina é a revista que tanto precisei na minha adolescência.

    http://ninagaldina.tumblr.com/tagged/blog

  • Natália Lopes

    Adorei o texto, super me identifiquei. Comecei a terapia a uns 2 anos por problemas parecidos, e ainda estou no processo de entendimento da minha vida e das minhas escolhas. Terapia nada mais é do que auto conhecimento

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  • Julia Drummond

    Muito obrigada por esse texto! Me identifiquei muito, acho essencial a desconstrução do tabu da tristeza e do lidar com as perdas e o dia-a-dia da vida associados a uma eterna busca pelo parecer feliz no facebook e afins. Obrigada mesmo :)

  • Brenda Dias

    Ótimo texto, ótimo blog!
    Acredito que você se daria muito bem em sessões com a terapeuta ocupacional (puxando sardinha para o meu curso). Dá um procurada se houver interesse ou fala comigo, podemos conversar sobre a profissão e, caso goste, tentarmos o contato com alguma t.o dai!

    Beijossss! Parabéns!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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