9 de maio de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Izadora Luz
Você não é mãe dele
Ilustração: Isadora Luz

Dedico este texto à minha amiga Gabriela Fernandez

* Vou falar de relacionamentos heterossexuais. Acho que mulheres podem ser mães de outras mulheres e homens mães de outros homens no sentido do texto, mas acredito que o mais comum seja entre mulheres e homens por questões socioculturais.

Em um ano de Capitolina devemos ter falado mais ou menos 1 zilhão de vezes que as diferenças entre homens e mulheres são socialmente construídas. É um dos axiomas da nossa revista. Pois bem, uma das diferenças socialmente construídas entre homens e mulheres é o cuidado.

Mulheres são ensinadas a cuidar de si e dos outros, mulheres são mães e homens são pais, mas uma pequena observação de como isso acontece revela que as mulheres cuidam muito mais dos filhos do que os homens. O papel feminino sempre foi associado ao cuidado e até pouco tempo atrás nem todas as mulheres trabalhavam fora – historicamente, a entrada de mulheres no mercado de trabalho aconteceu para mulheres brancas e de classe média/alta já que mulheres negras e pobres sempre tiveram que trabalhar –, hoje a grande maioria das mulheres trabalha e cuida da casa configurando jornadas duplas de trabalho. São também as mulheres que costumam cuidar dos idosos. Tudo isso pra dizer que mulheres aprendem a cuidar dos outros, a resolver pepinos dos outros, a ajudar os outros.

Não estou dizendo que todas as mulheres são assim ou que homens não são, até porque isso seria reforçar o cuidado como algo intrinsecamente feminino. Estou dizendo que, desde crianças, meninas são ensinadas a serem cuidadoras — algumas mulheres vão internalizar isso mais do que outras, da mesma forma que alguns homens vão também internalizar isso.

Quando a gente está namorando ou se relacionando de forma séria com alguém, esse lado do cuidado aparece ainda mais forte. Seu namorado não consegue terminar um trabalho pra faculdade e você já terminou os seus, aí você ajuda; seu namorado resolve escalar uma pedra limosa na cachoeira e você manda ele descer; está na hora de se inscrever nas disciplinas da faculdade e você lembra seu namorado, senão ele esquece; você tem que ensinar conceitos básicos pra ele; lembrar ele de ir ao dentista; ajudar a comprar móveis, senão a casa fica vazia; você se pega organizando as coisas na casa dele, lavando a louça, fazendo comida; vocês vão viajar e você leva duas toalhas, além de organizar tudo; ele deixa o cabelo crescer e você compra shampoo; exemplos ao infinito.

A gente acaba infantilizando os caras — e muitas vezes eles curtem esse papel e vão incentivando isso na gente, porque é mais fácil mesmo ter alguém pra resolver sua vidinha — e fazendo coisas que não são nossas obrigações e, principalmente, que eles não pediram. E isso pode ser muito prejudicial pro namoro e pra gente, que saco ter que ficar fazendo coisas por alguém que deveria ser seu parceiro, te ajudar também. Especialmente quando esses papéis se naturalizam no relacionamento e o cara passa a esperar isso de você, e você passa a fazer sem questionar.

Claro que amor implica cuidado, como eu mesma já falei em outro texto. E às vezes a gente é melhor em algo e realmente não se importa de fazer. Só que existe uma diferença entre ajudar e cuidar do seu amor e fazer as coisas por ele, no lugar dele, pra proteger ele de tudo. Isso é ser mãe. E você não é mãe do seu namorado. Repito como um mantra: você não é mãe do seu namorado, você não é mãe dele.

Às vezes pode parecer muito difícil fazer a diferença entre cuidar como namorada, ajudar como companheira, fortalecer como parça e entrar no limiar do cuidado maternal. E é difícil mesmo, porque são nuances, ambiguidades. Mas eu acho que existem duas formas de perceber: a primeira é fazer a seguinte pergunta: “Ele me pediu ajuda?” Simples assim, quando o boy precisar de ajuda ele vai te pedir, especialmente se é em algo que ele sabe que você é boa, da mesma forma que você sempre pode pedir ajuda a ele. A segunda forma é entender como você se sente em relação àquela ajuda que você tá dando: por que você está ajudando ele? É muito ruim achar que a pessoa que tá com a gente é incapaz de alguma coisa.

Especialmente porque os caras não são incapazes, se é algo que você consegue fazer ele vai conseguir também, mesmo que demore mais tempo e ele não seja tão habilidoso quanto você. A gente é criada pra achar que precisa cuidar de todo mundo o tempo todo, que esse é nosso papel, mas não é. Agora, se ele te pedir ajuda, vai lá, porque companheirismo é isso. Só que não é preciso fazer o que você não quer, especialmente o que você sente que não é sua função. Você não é mãe dele.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

  • Mari CUnha

    Toda vez que alguém da minha família começa a namorar eu vejo a mesma história se repetir. Minha prima lava a roupa do namorado na praia e ajunta todas as roupas que ele deixa jogadas no chão do banheiro…
    Aí querem arrotar que foram pra guerra, carregam sacos de cimento e blá, blá, blá, mas não sabem cuidar de si mesmos. Enquanto eles estavam nas trincheiras havia mulheres de babysitter para que os valentões pudessem fazer isso, elas sempre existiram por trás do papel de protagonista deles. E nunca foram nem são devidamente valorizadas…

  • nataliapacheco

    ca-ra-lho. Esse texto veio na hora certíssima. Às vezes, quando estamos em um círculo de amigos, as pessoas estão bebendo/fumando/whatever, e ele olha pra mim buscando minha permissão. No começo eu dava ou não, dependendo do que eu achava melhor. Mas por que EU tenho que resolver o que é melhor pra ELE? Não é? Isso começou a me incomodar muito porque eu não queria ser a pessoa chata que dizia não. Esse não era o meu papel. Hoje eu penso muito nisso e avalio milhões de vezes antes de dar minha opinião. Decidi que ele que é adulto e deve decidir por si mesmo se vale a pena enfrentar as consequências de uma determinada escolha. Tipo: ele bebe muito e eu não fico enchendo o saco pra parar. Deixa ele limpar o próprio vômito depois :)

  • http://simsemfrescura.blogspot.com.br/ Paola Alves

    Me identifiquei muito com o texto! Acho uma questão bem dificil, porque no meu caso por exemplo, a mãe dele sempre fez tudo sabe? TUDO. E por isso ele acostumou a não fazer nada.. não levar toalha para os lugares principalmente e ficar uma situação até chata dele sair do banho todo molhado e colocar a roupa direto/dividir a toalha comigo e ela ficar toda molhada depois, um saco! Como mudar esse hábito? Me incomodo muito com isso HAHAHAHAH ): http://simsemfrescura.blogspot.com.br/

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  • Carolin Carvalho

    Obrigada.

  • Quéren Hapuque

    Tem como vocês disponibilizarem esses textos de vocês em inglês também??? é uma riqueza.

  • Brígida

    É engraçado perceber que mesmo os caras que se dizem apoiar a luta feminista se privilegiam desses cuidados q tem das minas.

  • Julia Drummond

    Obrigada por isso!

  • louhainny gonçalves

    Foda é quando vc casa e chega super cansada,e tem que ensinar o dever de casa pq se depender do pai a criança vai sem dever pronto, fazer a janta pq senão o pai da um biscoito ou um miojo ou ver a casa virar uma zona pq vc se recusa a fazer as tarefas sozinha e o seu marido caga se está limpa/arrumada ou não sendo que os dois trabalham… pior ainda é quando vc quer dormir mais um pouquinho e a criança acorda querendo o café da manhã e o pai não tá nem aí… Não to sabendo lidar :/

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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