6 de maio de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Você não pode sentar com a gente
Ilustração de Isadora M.

Ilustração de Isadora M.

Quando pensamos em agressão, o que vem à mente? Se isso fosse uma sala cheia de professores do seu colégio, aposto que eles começariam a falar sobre meninos e como eles, quando brigam, se batem, socam, chutam, etc. Uma falta no futebol durante o recreio pode se tornar um olho roxo em menos tempo do que leva para a menina mais popular do colégio passar seu gloss. Agressão fica, em nossas cabeças, intimamente ligada à violência física explícita, daquelas que deixam roxos e arrancam sangue. E quem normalmente se envolve nessas brigas são os meninos. Mas não existe apenas esse tipo de agressão, nem devemos acreditar que apenas meninos brigam.

Você já deve ter ouvido falar do filme Meninas Malvadas, que acaba de completar 10 anos de estréia. Pois bem, esse filme é sobre agressão. Pode não parecer, porque as meninas não se batem – salvo a discussão sobre se uma teria empurrado a outra na frente do ônibus, mas todas nós sabemos que a Caddie não faria isso. A mensagem do filme é justamente essa: elas podem até usar rosa às quartas-feiras, mas, não se engane, as meninas, populares ou não, são agressivas. Para isso, não precisam usar de violência que nem os garotos; e isso faz com que sua agressividade seja velada, mais sutil. Em uma das cenas mais célebres do cinema, todos admitem que já se sentiram vitimizados por Regina George, a menina mais popular do colégio. Meninas, vistas por professores e pais como sempre dóceis e meigas, armadas até os dentes com cadernos fofinhos e adesivos brilhantes são capazes de agressividade.

Nossa vida não é um filme – longe disso. O roteiro do nosso dia a dia não é tão claro nem tem regras tão rígidas quanto as da fictícia North Shore High. Mas em quase todo colégio existe um grupo de meninas populares. Existem grupos diferentes que são incluídos em atividades ou excluídos delas, de acordo com sua posição. A popularidade é um jogo, assim como a amizade e outros relacionamentos sociais – um jogo do qual às vezes escolhemos não participar, ou do qual somos forçosamente excluídas. E isso dói, não que nem um olho roxo. Essa dor não vai embora assim que o sangue estanca. A moeda de troca nessa transação também não é a violência física, mas são nossos próprios relacionamentos. E a pressão não diminui quando se chega ao topo da ladeira social – na verdade, ela apenas aumenta.

Por não ser algo tão físico quanto um chute no estômago, muitos professores, coordenadores e pedagogos demoram a perceber o que está acontecendo em sala. E raramente quem sofre esse tipo de agressão quer procurar ajuda, pois corre-se o risco de ser ainda mais ridicularizada. Também custamos a admitir que estamos sofrendo algum tipo de abuso por parte daquelas pessoas que chamamos ou queremos chamar de amigas – ou elas mesmas dizem que não estão nos tratando de maneira diferente, quando claramente deixaram de te convidar para comer pizza na casa de alguém junto com o resto do grupo. Ficamos imaginando: o que fiz de errado para merecer isso? Será que fui uma péssima amiga? O que ta acontecendo? Será que estou imaginando tudo isso? Ela acabou de virar os olhos para mim? Isso dói.

Mas, como acontece no filme, raramente somos apenas agredidas. Nós também agredimos. E o fazemos por vários motivos: estamos entediadas, queremos subir em popularidade, queremos firmar novas amizades, queremos evitar a concorrência. É difícil admitir isso, mas causamos mal a outras pessoas – pessoas que às vezes um pouco antes chamávamos de amigas. Nós as fazemos sofrer e com isso também sofremos. Às vezes, para que somos forçadas por alguém a magoar outra pessoa. Contamos o segredo de uma amiga para outra, intencionalmente, para conseguir ser aceita em um novo grupo de amigos. Depois nos arrependemos – e pagamos o preço, a amizade que possivelmente jamais conseguiremos recuperar.

E como se lida com essa situação? Primeiro, temos que reconhecer o que está acontecendo como agressão. Se todas as suas amigas pararam de falar com você e estão te evitando, isso não é fruto da sua imaginação, está ocorrendo de verdade. Se admitirmos que isso está ocorrendo, fica mais fácil de decidir o que fazer – insistir na amizade ou procurar uma nova turma. Não é o fim do mundo admitir que aquele grupo de amigos te faz mais mal do que bem. E que tal dar uma chance para aquelas pessoas que parecem legais, mas com as quais você nunca realmente conversou?

Também não há vergonha alguma em pedir ajuda, principalmente se a situação já estiver mais avançada e você se sentir sem alternativa. Essa é a hora em que adultos mais experientes podem te ajudar. Mas que isso fique claro: nenhum deles vai conseguir trazer a amizade daquelas pessoas de volta, ou forçá-las a te tratar bem. Pelo contrário, o que adultos podem fazer é te ajudar a entender seus sentimentos e entender a situação, até mesmo superá-la. Agora, nada vai se resolver se esquecermos que nós também somos agressoras e agressivas – se você sofreu esse tipo de agressão na pele, que tal parar de agredir outras pessoas dessa maneira? Às vezes fazemos até sem querer, mas não custa nada ficarmos mais atentas às nossas atitudes. Pode parecer que não temos escolha, ou que é coisa de filme, mas se mudarmos a maneira como nos tratamos, o ambiente escolar deixa de ser agressivo e nossas amizades deixam de ser pautadas no medo.

No final de Meninas Malvadas, todos percebem que eram vítimas e resolvem mudar. O filme é uma obra de ficção, mas às vezes achamos que precisamos exatamente disso, uma reunião no ginásio para conversar sobre esses problemas. Sabe qual o real significado daquela reunião? É naquela cena que todas percebem que não estão sozinhas, nem estão isoladas – e nem mesmo a Regina George consegue ser rainha sem as outras meninas. Essa é uma lição que podemos levar para a vida: não estamos sozinhas, nem quando todos parecem nos ignorar ou quando achamos que nossa popularidade depende da humilhação de outra pessoa. Não somos obrigadas a aceitar condições que outras nos impõe para sermos consideradas amigas, e não estaremos sozinhas se deixarmos para trás essa amizade agressiva, que tanto nos machuca. As meninas populares estão cheias de roxos pelo corpo inteiro, marcas das batalhas que elas vivem no dia a dia de seus relacionamentos. São tantos roxos que nem a roupa rosa e o gloss bem aplicado conseguem esconder. É só você saber onde procurar.

 

“Levante a mão quem já se sentiu pessoalmente vitimizada por Regina George” – Meninas Malvadas

 

** esse texto foi elaborado depois da leitura do livro “Garota Fora do Jogo”, de Rachel Simmons. A leitura é recomendada para todo mundo – tanto para adolescentes quanto para pais e educadores. A agressão relacional, como explica a autora, ainda é um fenômeno que tem que ser reconhecido para conseguir ser superado. Seu livro é pioneiro nesse sentido.

 

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

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