31 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Você vai se lembrar de mim?
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O mês de março chegou ao fim — e com ele chega ao fim nossa vigésima-quarta edição, cujo fio condutor foi História. E para encerrar o mês com chave de ouro, estou aqui para pensar com vocês qual legado queremos deixar para o mundo.

Quando falamos de “legado”, parece que estamos pensando só naquelas pessoas que deixaram marcas profundas na História de humanidade. Muitas mulheres de fato o fizeram — Marie Curie, Nina Simone, Frida Khalo — mas não são apenas as grandes histórias que constroem a História da humanidade.

As pequenas narrativas de cada uma de nós, somadas, é que move o mundo. E, por mais que às vezes não pareça, estamos SIM fazendo História! Não acredita?

Você consegue imaginar a diferença que revistas como a Capitolina ou Azmina teriam feito se elas existissem dez anos atrás? Quando eu tinha 15 anos, não se falava em empoderamento feminino. O único tipo de informação que chegava em mim era sobre como devemos agradar os meninos para conseguir uma migalha de atenção, ou conseguir um namorado. Pode parecer besteira para meninas que hoje estão crescendo com a palavra feminismo na ponta da língua (felizmente), mas para a minha geração isso pode ter chegado um pouco tarde. Não diria tarde demais, claro, senão eu não estaria aqui escrevendo este texto — mas eu arriscaria dizer que foi tarde o suficiente para deixar marcar profundas no meu passado como menina adolescente que buscava aceitação.

Ao escrever um texto tão importante como este aqui, sabendo que meu público-alvo são garotas que precisam saber que são importantes e são suficientes do jeito delas, eu me sinto escrevendo para o meu eu de muitos anos atrás todas as coisas que eu gostaria de ter ouvido. Então, se isso não é fazer História e deixar um legado, o que é? <3

A vida, porém, é bonita pois pode adquirir significados diferentes pra cada pessoa, e então podemos pensar que existem bilhões de jeitos de deixar uma marca enquanto estamos vivas! É como uma escala de cores infinita em que podemos escolher o tom que nos agrada e sermos os únicos a carregar essa cor, ou então um mesmo tom pode representar várias pessoas diferentes e não deixa de ser uma tonalidade menos original por isso. Não importa se nossa escolha é original ou não, o importante é que ela nos represente e agrade. Complexo demais? Explico: uma mesma causa pode nos motivar a trabalhar duro numa coisa. Algumas pessoas terão causas que só fazem sentido para elas, outras lutarão por pautas que são revogadas por milhares de pessoas. E nossa luta só deve fazer sentido pra gente mesmo. Afinal, cada uma de nós traça um caminho bem particular nesse mundão, né?

Ao longo desses 25 anos de existência, já tentei abraçar coisas diferentes, já abracei coisas demais e hoje em dia acho que tenho mais claro na minha cabeça o tipo de coisa que me move e que me faz ter vontade de deixar uma marquinha na História. Uma dessas coisas são os direitos dos animais. Eu decidi há uns anos que era importante para mim mudar hábitos para que eu tivesse minha consciência limpa no que diz respeito ao sofrimento de animais não humanos no mundo. Virei vegetariana e depois, há exatos 3 anos e 4 meses, adotei um estilo de vida vegano. No início, recebi tantas críticas que eu tinha até preguiça de explicar porquê eu havia tomado essa decisão, ou como fazia para “sobreviver sem queijo”. Mas depois de um tempo muitas pessoas começaram a me procurar para falar sobre veganismo. Pessoas com quem eu não falava ou nunca havia conversado, pessoas próximas, pessoas de quem eu não gostava e passei a gostar. Enfim, eu nem imaginava que uma decisão minha poderia ter uma influência tão grande sobre as pessoas ao meu redor. Foi extremamente gratificante perceber isso e, atualmente, minha irmã também é vegana, minha mãe aceita muito bem minha opção, muitas pessoas que nunca nem iriam ouvir falar sobre o assunto sabem agora que a produção de qualquer produto que tenha derivados animais causa sofrimento. Esse tipo de coisa, pra mim, é deixar uma pequena marca no mundo.

Quando comecei a falar sobre feminismo nas redes sociais, senti que muitas amigas minhas tinham certa resistência ao assunto. Com o passar do tempo, fui me aproximando de mulheres incríveis e aprendi demais, e hoje em dia acredito que consigo passar um pouco do que sei para outras meninas que buscam mudar a forma como elas pensam.

Ajudar outras mulheres a se libertar de amarras que a sociedade patriarcal nos impõe foi uma das experiências mais gratificantes pela qual já passei. É impressionante como sou preenchida por uma sensação muito boa, de missão cumprida.

Quando penso que é por essas coisas que serei lembrada, e espero que ao longo da vida eu seja lembrada por muitas outras coisas positivas, acho que posso acreditar que estou ajudando a construir uma História diferente, baseada em princípios nos quais acredito.

Você também acha que está deixando algo importante escrito na História?

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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