2 de janeiro de 2016 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Vocês são o que mesmo?

Tinha uma menina no meu colégio que namorava um menino. Quer dizer, eles não namoravam, namoravam, sabe? Eles namoravam, mas sem a palavra. Veja bem, a palavra não faz a menor diferença, né? Todo mundo sabia que eles tavam juntos, a mãe dele chamava ela de norinha. O que importa é como eles se sentiam em relação um ao outro e como eles se tratavam e era um namoro, né? Só não era esse nome, namoro. A gente vive num mundo onde tudo é tão fluido, né? Será que precisa dessas coisas?

Até que eles não estavam mais juntos e o menino começou a namorar uma outra menina. A primeira amiga ficou arrasada. 

O que eu aprendi com essa história: palavras não são só palavras. Dizer que namora faz diferença, sim. E se é uma coisa que você faz questão pensa setecentas vezes antes de abrir mão.

Já consigo ouvir as vozes de protesto “mas que diferença faz dizer que namora?”; “você só que provar as coisas pro mundo?”; “você acha que isso te dá alguma garantia de alguma coisa?”. Toda, sim se você quiser, e não. Mas vamos com calma. 

A diferença que faz é justamente o peso da instituição. Sim, namorar é apenas uma palavra, mas se fosse só isso não tinha essa caô todo. Namorar implica um determinado grau de comprometimento e responsabilidade. E também implica reconhecimento social, sim, namoro é uma instituição social e de alguma forma isso vai fazer parte da sua identidade. Você vai estar no segundo ano do ensino médio, fazendo natação, gostando dos livros da Jane Austen e namorando. Ou vai estar solteira, ou ficando com alguém ou com várias pessoas ou é complicado e assim por diante. De qualquer forma isso vai dizer sobre quem a gente é naquele momento.

Dizer que namora é num certo sentido provar as coisas pro mundo. Eu não acho que alguém que não diz que namora ama menos do alguém que diz, porque amor é muito complicado pra matemática, mas dizer “namorado” e “namorada” tem implicações sociais específicas. A questão é que provar as coisas pro mundo não precisa ser uma coisa ruim. Você pode só realmente querer dizer pra geral que tá com aquela pessoa e isso é uma coisa bonita, não tem vergonha nenhuma. É apenas dizer que você reconhece o espaço daquela pessoa na sua vida, que ele é legítimo, que você quer ela lá.

Lógico que dizer que namora não vai dar garantia de que aquilo é eterno ou que vocês se amam mais que outras pessoas e ninguém é obrigada a querer namorar (e nem vai ser melhor ou pior por isso), mas o que eu quero dizer aqui é que faz diferença se faz diferença pra você, se é uma coisa que você quer, se você acha importante você pode querer namorar com todas as letras, colocar que está num relacionamento no Facebook e até usar anel de compromisso.

Existe essa ideia de que namorar é uma obrigação, uma responsabilidade, um compromisso, o fim da linha, batalha perdida. Mas não precisa ser assim, namorar pode ser a melhor coisa do mundo, e se não for, nada que não possa ser terminado, e aí se fica solteira ou se namora outra pessoa, ou então se envolve com outra pessoa sem namorar e tudo bem, as coisas são assim mesmo. O que realmente importa é fazer as coisas da forma como a gente quer. E se você quer compromisso tudo bem.

Se relacionar com os outros quer dizer fazer várias concessões, encontrar meios-termos, ceder, mas é também saber quais são nossos limites, o que cada uma está disposta a abrir mão e o que não está. Saber respeitar nossos sentimentos acima de tudo.

 

 

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

  • Beatriz

    Entendo que o foco do texto não seja esse, mas poxa, a impressão que me causou foi a de que se não há o rótulo, não é preciso responsabilidade. Não chamar de namoradx não significa que não haja responsabilidade emocional com o outro, de qualquer forma, ali está sendo estabelecido um relacionamento, não importa de qual tipo… Digo isso pois por muito tempo me enganei quanto a isso: tratei alguém muito mal por pensar que o fato de recusar o rótulo “namoro” me dava liberdade para não respeitar a outra pessoa emocionalmente.

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