5 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Voldemort, o medo de um nome e por que devemos enfrentá-lo

O tema dessa edição é “Aquilo que não deve ser nomeado”. Para mim, que cresci lendo livros de ficção e fantasia, a primeiríssima coisa que me vem a cabeça quando falamos isso é, com toda a certeza do mundo, Harry Potter – o Lord Voldemort, para ser mais exata. Logo no começo do primeiro livro, somos apresentados ao personagem por Hagrid, que o chama de “aquele que não deve ser nomeado” ou “Você sabe quem”; Hagrid sente tanto medo do nome dele que não tem coragem de falar, acabando então por escrevê-lo.

Como a gente bem sabe, o mundo bruxo no qual se situa o universo de Harry Potter é dividido em dois: a primeira guerra bruxa, que termina com a morte dos Potter e com a cicatriz de Harry, o menino que sobreviveu, e a segunda guerra bruxa, que se passa a partir do quinto livro da série, Harry Potter e a Ordem da Fênix.

Bom, voltando à proibição do nome de Voldemort. Palavras são poderosas, e o medo de mencioná-las as torna mais poderosas ainda. Quando Harry Potter descobre que é o menino que sobreviveu e é então introduzido ao mundo bruxo, ele nunca tinha ouvido falar nada sobre a história de Voldemort. Não cresceu tendo medo do nome.

Podemos fazer um contraponto com Hagrid, já mencionado, ou com os Weasley, por exemplo. Eles viveram em um mundo onde muitos de seus amigos mais próximos foram mortos ou torturados pelo lorde das trevas; famílias de bruxos e não bruxos foram destruídas, dizimadas, reduzidas a pó — os Longbottom, por exemplo, sofreram da maldição Crucio até a insanidade. Quando Voldemort foi derrotado pela primeira vez, todo o mundo bruxo estava traumatizado.

O trauma gerado por ele fez com que as pessoas tivessem medo de pronunciar seu nome. E, como Dumbledore mesmo diz em Harry Potter e a pedra filosofal, “o medo de um nome só aumenta o medo da própria coisa”. Por conta disso, Dumbledore incentivava as pessoas a pronunciarem o nome dele; o próprio diretor o fazia para que o medo fosse superado, enfrentado. Foram longos 13 anos entre a primeira guerra bruxa e a segunda, anos nos quais as pessoas ainda cultuavam o medo do nome de Voldemort.

Harry, assim como Dumbledore, pronunciava o nome de Voldemort; além disso, eles incentivavam seus amigos e a Ordem da Fênix a fazerem o mesmo. Quando Voldemort voltou e a segunda guerra bruxa começou, ele lançou um feitiço em seu nome: toda vez que alguém falasse, seria como se a pessoa fosse rastreada e todos os feitiços de proteção feitos por ela seriam desfeitos. Voldemort se aproveitou do medo que as pessoas sentiam e de como elas tentavam enfrentar isso para achar seus inimigos e assim poder atacá-los.

Eu costumo relacionar absolutamente tudo na minha vida com Harry Potter; transporto todas as coisas mencionadas nos livros para a minha realidade, e essa não é uma exceção. Realmente acredito que a gente deva dar nome as coisas porque isso nos dá mais força para enfrentá-las. É muito comum as pessoas terem medo de falar as coisas em voz alta porque isso as torna reais; eu, em contraponto, sou totalmente a favor de fazermos isso.

Ao nomear algo que sentimos, por exemplo, reconhecemos que isso existe em nós. Eu sou gorda. Sou gorda desde o início da minha adolescência e por muito anos combati isso dentro de mim: não conseguia assumir para mim mesma que eu era assim e, por conta disso, eu não me aceitava. O primeiro passo para a minha aceitação foi perceber que eu era gorda e que não tinha problema algum nisso; foi perceber que eu sou gorda mas que isso não significa que eu não seja saudável, bonita ou que mereça ser amada.

Quando digo que Harry Potter foi meu melhor amigo enquanto eu cresci e que muito do que sou hoje é por conta dele, é realmente verdade; entre tantas outras coisas, ele me ensinou a enfrentar o medo que eu sentia em diversas situações, e por isso sou eternamente grata.

Marina Monaco
  • Colaboradora de Música
  • Social Media
  • Audiovisual

Marina tem 25 anos, mora em São Paulo, é formada em Audiovisual e cursa Produção Cultural. É apaixonada pela cor amarela, por girassóis e pela Disney. Ouve música o dia inteiro, passa mais tempo do que deveria vendo séries e é viciada em Harry Potter (sua casa é Corvinal, mas reconhece que tem uma parte Lufa-Lufa).

  • Carolina Sales

    Parece que fui eu que escrevi isso (se eu tivesse esse talento maravilhoso com as palavras haha)!
    Também sempre neguei inconscientemente que era gorda, com aqueles “eufemismos” (como se ser gorda fosse uma coisa horrível que deve ser suavizada) conhecidos como “gordinha” ou “fofinha” ou sei lá. Mas ao longo do tempo, e de muito trabalho comigo mesma, também consegui aproveitar essa lição de Harry Potter e deixar de ter medo de me reconhecer em mim mesma <3

    E mais um detalhe: também sou corvina, mas uma parte de mim quer ser lufana kkkkk

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Primeiro, a primeira coisa que pensei com o tema desse mês foi o Voldemort, então senti meus pensamentos sendo traduzidos no seu texto hahaha. Mas falando sério agora, não só o medo, mas é tudo mais fácil, mas real na vida se reconhecemos ela, o nome no caso, quando sentimos algo ruim e finalmente damos um nome (o que esse algo ruim é mesmo) ou quando gostamos tanto de lago sentimos algo muito bom sobre, tudo é mais fácil de lidar quando é nomeado. Espero não ter feito um comentário tão confuso quanto parece na minha cabeça…

  • Pingback: O que faz um filme ser um clássico — Capitolina()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos