25 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Beatriz H.M. Leite
Vou te conquistar
[Pauta25]-BeatrizLeite

“Vou te conquistar”

Dizem que foi isso que Cristóvam Colombo disse quando fincou a bandeira espanhola na terra que ficaria conhecida como América. Mentira. Mas ele bem pode ter pensado isso mesmo.

E ele só inaugurou a moda. Depois dele vieram vários outros – muita gente gostou dessa história de sair disputando terras por aí, “descobrindo” e “expandindo,” quando na real tudo no qual tropeçavam já era habitado e já existia há um tempão. Mas imagine você como são as coisas, né. Aquele monte de gente e milhares de anos de experiências e cultura foram rapidamente condensados em um capítulo de livro de história “pré-colombiana.” Não são Incas, Maias, Tupis…são o conjunto de povos que deu mole e perdeu playboy.

Faz pouquíssimo tempo que paramos com essa brincadeira de dividir o mundo em terra-minha-terra-sua. Faz pouquíssimo tempo que paramos de chamar terra-que-não-é-dos-nossos-iguais de terra de ninguém, só para em seguida chamar de terra-nossa. Moçambique comemorou em junho 40 anos de independência – até para nós, que estamos perto de completar 200 anos sem ser colônia, parece pouco. Minha mãe já era adolescente quando Portugal se resignou a ser um filete de terra na Europa, fez as malas e partiu para casa, mas não sem antes muita birra – e muito sangue, não podemos esquecer.

E são em sua maioria homens que encabeçam expedições de conquista. Não que seja intrínseco à condição de ser homem fazer essas coisas. Não que não tenham mulheres com capacidade e vontade de sair pelo mundo fazendo “descobertas.” Mas a equação descobrir + conquistar = dominar tende a ser masculina. E não se aplica só a terras.

Há muitos paralelos entre a história da conquista das terras e a conquista de mulheres. Somos vistas corpos que, se não acompanhados de um igual, tem direito a ser assediados na rua. E depois precisamos ser conquistadas, em caso de algum interesse.

Não nos enganemos, volte à equação ali em cima: a vontade de conquistar, nesses termos, é a de dominar. A conquista envolve apagar a vontade do outro. É a ideia da terra de ninguém, da redução de toda a complexidade de um ser humano e uma sociedade a objeto. É inaceitável.

Poderia escrever muito mais aqui sobre a distorção que existe na lógica da conquista – seja ela de terras ou de mulheres. Mas vou fazer que nem minha analista e deixar você pensando sobre esse ponto. Olha a foto ali embaixo. Não somos território de conquista.

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Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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