6 de novembro de 2014 | Edição #8 | Texto: | Ilustração:
We can do it: as mulheres na força de trabalho
Ilustração: Isadora Borges.

Ilustração: Isadora Carangi

Texto de Thais Bakker e Stephanie Ribeiro

Você já deve ter visto aquele cartaz antigo do “We Can Do It”. A moça retratada lá tem o apelido de Rosie, the riveter (em tradução livre, Rosie, a rebitadora, que é um tipo de operária de fábrica), e essa tal Rosie, a rebitadora se transformou em um ícone por todos os Estados Unidos, aparecendo em inúmeros objetos culturais veiculados pelo governo norte-americano que tinham o objetivo de levar mais mulheres até a força de trabalho pesada, tipicamente associada a homens e completamente diferente dos tipos de trabalho que as mulheres vinham realizando (geralmente relacionados a educação, enfermaria, costura e tecidos ou afins).

A particular moça que aparece no cartaz se chama Rose Will Monroe e era de fato uma rebitadora, mas o objetivo principal da figura da Rosie, a rebitadora era que o máximo de mulheres possível se identificasse e seguisse seus passos de trabalhadora da indústria pesada.

We_Can_Do_It!

Isso foi parte de um processo que visava movimentar as mulheres e mobilizar todos os esforços possíveis para sustentar a Segunda Guerra Mundial. Nem precisa dizer que inúmeros homens foram servir no exército, deixando seu país e seus empregos, e muitos desses morreram em batalha. Era preciso que alguém operasse as fábricas como as de armamentos, e aí entraram as mulheres. O governo começou um processo intenso de propaganda tentando estimular as mulheres a trabalharem nos esforços de guerra, apelando especialmente para seu senso de nacionalismo e a necessidade de protegerem e apoiarem seus homens que estavam em batalha.

Deu certo: nos EUA, em 1890, a porcentagem total de mulheres na força de trabalho era de 17% e em 1944, já era 35,4%. Esse processo é mais conhecido nos Estados Unidos devido ao cartaz do “We Can Do It”, que aparece em todos os cantos até hoje, mas também aconteceu em menor medida na Primeira Guerra Mundial e em vários outros países envolvidos nas guerras. Por exemplo, na Alemanha de 1944 a participação das mulheres na força de trabalho estava em 51,1%, uma escalada surpreendente desde 1938, quando esse número estava em 37,4%.

Quando eu descobri que o símbolo mais famoso do movimento feminista e a mudança mais brusca e significativa nas formas de trabalho femininas na realidade foi resultado de uma movimentação do governo (composto naquela época quase completamente por homens) para atingir interesses horríveis, fiquei meio decepcionada. Às vezes fica até difícil ter esperança no mundo sabendo desse tipo de coisa. Mas quando pensamos nisso, não podemos esquecer também de episódios como aquele que supostamente deu origem ao Dia Internacional da Mulher: em torno de 1850, em um 8 de março, mais de 100 operárias de uma fábrica de tecidos em Nova York se mobilizaram em uma greve contra as condições de trabalho deploráveis às quais eram submetidas e foram horrivelmente reprimidas, sendo trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Entretanto, a veracidade desta história é controversa, e ela parece na verdade ser uma mistura de outros acontecimentos relevantes: uma greve de 1909 que durou mais de um mês e teve participação de cerca de 15 mil trabalhadoras da industria têxtil, um incêndio numa fábrica têxtil que matou 125 mulheres e 21 homens e uma greve em São Petesburgo de trabalhadoras do setor de tecelagem no dia 23 de fevereiro do calendário juliano e 8 de março no calendário gregoriano, que teria sido o estopim da revolução russa.

Se pensarmos nos recortes em relação a mulheres negras, podemos entender que, diferente das mulher brancas, a mulher negra nunca foi impedida de trabalhar, inclusive sua mão de obra foi escravizada. Tendo em vista esse passado, negras lutavam contra outras amarras e ainda lutam. No caso, nenhuma inviabiliza a outra, são paralelas, por isso se faz necessário entender que hoje já podemos trabalhar, e a propaganda não nos representa em alguns cargos só como jogada de marketing do governo. Mas mulheres ainda ganham menos que homens e negras menos ainda, a maioria no trabalho informal e em serviços domésticos.

Nada que conquistamos devemos para alguém, e essas mulheres corajosas que sofreram mortes horríveis na mão do Estado, de donos ricos de fábrica, estão de prova. A movimentação para aumentar a participação das mulheres na força de trabalho que vimos na Segunda Guerra foi apenas um primeiro passo para mudar os lugares ocupados pelas mulheres na sociedade e tudo, absolutamente tudo, que conquistamos é mérito nosso. E ainda temos muito a conquistar, visto que mulheres são tratadas de forma desigual no campo profissional e as negras ainda predominam nas áreas referentes a servir a alguém, ou seja, as correntes de anos de negros sendo tratados como escravos ainda são marcantes no presente.

É importante lembrar que quanto mais incomodamos, mais conquistamos espaço para nós, para nossas filhas e netas e para todas que virão depois de nós. Toda vez que alguém se irrita com mulheres defendendo seus próprios direitos, o mundo fica um pouco melhor para nós: a ordem defendida pelos governos e pelos poderosos só nos quer no poder quando interessa a eles, mas nós estamos pouco a pouco chegando lá, quer eles queiram, quer não.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

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