10 de dezembro de 2014 | Edição #9 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Will e Chris: famílias negras na televisão

Não tem muitas famílias negras em filmes, seriados, revistas… É incrível como nós, negras, mesmo representando quase mais da metade da população, somos minorias na mídia. Uma das poucas famílias negras da televisão é a família Banks, de Um maluco no pedaço, seriado americano da NBC de muito sucesso da década de 90. Eu, particularmente, gosto muito do seriado, mas acho bom, meninas, pontuar algumas coisas.

Eu tenho a impressão de que o seriado é prega muito no subconsciente a meritocracia. Vou tentar explicar para vocês: O chefe da família, Philip Banks, é um renomado juiz que trabalhou bastante e conseguiu um lugar de destaque na camada social. Ao longo do seriado, vejo muito Philip reproduzindo frases sobre meritocracia, e o quanto ascensão social é algo bom. A família Banks, mesmo sendo uma família negra, tem muitos valores “brancos”, e isso se expressa muito nos luxos e atitudes individuais e coletivas da família: a filha mais velha, Hilary, com todos seus caprichos, e o Carlton, com seu jeito de falar e vestir. Acho importante levantar a discussão sobre valores da negritude e como isso é relevante.

Mas a presença do Will, o protagonista, que é o tal “maluco no pedaço”, vem um pouco para quebrar isso. Me lembro do primeiro episódio, no qual Will fala para Philip que ele esqueceu suas raízes. A presença de Will vem um pouco para relembrar a familia de onde ela veio, Will sempre resgatando vivência das quebradas lá da Philadelphia, e é incrível o quanto ele não está interessado em se adequar àquele padrão no qual a família Banks se enquadra. Mas quero reforçar que, mesmo com todo o dinheiro e status, não se pode negar o racismo que eles enfrentam. E, apesar de levantar esses pontos, eu acho importante ligar a televisão e ver uma família negra inteira protagonista de um seriado.

Só ficaria mais feliz em ver mais famílias como a de Chris (da série Todo mundo odeia o Chris). Apesar do contexto ser outro, por se passar nos Estados Unidos, tem tanto da gente, tanto das nossas famílias negras e da periferia. Me vejo muito mais na família do Chris do que na família bem sucedida dos Banks, porque faz a gente refletir mais sobre nossos cotidiano. Acho que isso é sobre se sentir representado, sabe, ligar a televisão e ver um pouco da nossa família negra num seriado, me sentir mais parecida com Tonya, irmã de Chris, do que com a Hilary Banks.

O ponto é: precisamos de mais representatividade negra na televisão, só que ao mesmo tempo combatendo estereótipos, porque isso é sim uma ferramenta importante contra o racismo.

Andreza Delgado
  • Colaboradora de Escola, Vestibular e Profissão

Andreza Delgado, 19 anos, leonina e baiana da terra do cacau, é estudante de Letras mas não tão assim, gosta de astrologia porque acha que resume metade dos problemas dela com as pessoas, é militante do movimento negro, apaixonada por colocar ketchup em tudo que é comida , fala mais que os cotovelos e acha que vai mudar o mundo.

  • Marília Carvalho

    Gostei do texto, mas gostaria de fazer uma pequena crítica (que eu espero soe como construtiva): à medida em que se fala de “valores brancos”, família negra, representatividade para os negros, etc. só o que se consegue é enfatizar ainda mais as possíveis diferenças ainda existentes. Digo possíveis, porque uma família pobre é uma família pobre, tanto faz se constituída por brancos ou negros. Nasci numa família pobre, sou branca e também me identifico com a seriado do Cris. Família é família e é feita de pessoas, a cor da pele não necessita ser citada, mesmo que a intenção, como no texto acima, seja erradicar as diferenças, acabar com (ou diminuir) o racismo. Quero dizer que mesmo dando notoriedade aos negros na televisão ou em qualquer outro lugar, isso só aumenta as diferenças, porque sempre se enfatiza que eles têm de ser incluídos, trazendo uma ideia constante de segregação que pode ou não existir em alguns contextos. O ator americano (e na minha opinião é mais correto referir a ele como ator tão somente e não como “ator negro”) Morgan Freeman tem um pensamento que resume bem o que eu estou tentando dizer: “O dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparece”.

    • Isabela

      Não concordo com sua frase Marília, no que se diz : “Quero dizer que mesmo dando notoriedade aos negros na televisão ou em qualquer outro lugar, isso só aumenta as diferenças, porque sempre se enfatiza que eles têm de ser incluídos, trazendo uma ideia constante de segregação que pode ou não existir em alguns contextos.” Esse mesmo argumento é utilizado para debater contra o sistema de cotas ou qualquer outra medida de igualdade racial nos sistemas existentes. Há muito ainda que se fazer pela inclusão social do negro em todos os contextos no qual ele é excluído e uma necessidade constante da desconstrução de esteriótipos preconceituosos na mídia como os “clássicos”: empregada negra na novela, o negro bandido no filme que é combatido pelo policial branco, a mulata sambista e assim vai…

      • Marília Carvalho

        Entendi seu ponto de vista, Isabela. É verdade… Obrigada por responder meu comentário! =)

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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