13 de junho de 2016 | Ano 3, Edição #27 | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
Yaoi: por que os mangás de amor entre meninos são sucesso entre as meninas?

“Yaoi” é uma sigla que, em japonês, significa “yama nashi, ochi nashi, imi nashi”. Em português, o termo se traduz como “sem clímax, sem resolução, sem significado” e surgiu para se referir a fanzines que parodiavam animes e mangás famosos. A expressão foi evoluindo e, hoje em dia, se refere exclusivamente a mangás (ou fanzines) que retratam relações homossexuais explícitas entre homens. No Japão, o termo “Boy’s Love” também é muito usado em vez de “Yaoi”.

Mas, se você clicou neste artigo, provavelmente já sabe de tudo isso.

Uma das coisas mais curiosas sobre o gênero yaoi é que ele é feito de mulheres para mulheres. Ou seja, a maioria das autoras desse tipo de mangá é mulher, e as consumidoras, também.

Por que um gênero que não tem protagonistas mulheres seria tão interessante para elas, você me pergunta? E agora sim chegamos ao ponto que este pequeno artigo pretende abordar.

Eu descobri o Yaoi através de fanfic de YuYu Hakusho. Na época, o sexo era um tema difícil pra mim, e ter contato com ele através de personagens fictícios dos quais eu gostava facilitou a minha reflexão e aproximação do assunto. O fato de os romances serem protagonizados exclusivamente por homens também, afinal, a questão de gênero ficava temporariamente fora de cena. Não havia hierarquia social entre aquele caras, não existia uma presunção de fraqueza e força, submissão e domínio. Não existiam papéis pré-definidos.

No livro Mangá – Como o Japão Reinventou os Quadrinhos, lançado pela editora Conrad, Paul Gravett especula que esse seja justamente o apelo do yaoi para as mulheres japonesas: em uma sociedade com papéis sexuais ainda muito definidos, elas procuram um novo tipo de romance em que nenhum dos parceiros tem que fingir ser mais fraco que o outro. Além disso, segundo a autora, o consumo dessas histórias seria um tipo de protesto contra a fantasia masculina japonesa com mulheres de corpos hiperssexualizados.

Também é levantada, no livro, a possibilidade de o consumo de Yaoi pelas adolescentes japonesas estar ligado à representação assexuada das personagens nos mangás para meninas. De fato, quando pensamos em mangás shoujo famosos, o que vem a cabeça? Em CardCaptor Sakura, a Sakura tinha vários crushes mas não beijou nenhum; em Sailor Moon, a desengonçada da Serena namora firme com o mesmo cara há anos e a gente não vê nem um amasso; em Fruits Basket, a Tohru fica vermelha só de olhar pros caras.

Sejamos justos: há exceções ao estereótipo da protagonista virginal, como a Miaka, de Fushigi Yugi, a Miyasaki, de Karekano (uma das minhas favoritas!), a Momo, de Peach Girl (outra que eu adoro), dentre outras. Mas a regra é mesmo a menina delicada, feminina, que espera ansiosamente que seu senpai a note e lhe dê o famigerado primeiro beijo. E, por isso, o Yaoi funciona como uma alternativa de entretenimento em que não são retratadas regras de comportamento tão rígidas, já que todos os personagens principais são homens e, portanto, têm o máximo de liberdade e independência permitido na sociedade japonesa.

Nesse ponto, a sociedade brasileira é parecida com a japonesa. Existem fortes estereótipos de gênero: dos homens se espera uma personalidade mais assertiva e dominante, e das mulheres, delicadeza e passividade. Os homens são considerados naturalmente mais sexuais, enquanto que as mulheres devem ser reservadas e “preservar-se” – o que é uma grande besteira e não passa de mais uma ferramenta de controle sobre os nossos corpos.

Portanto, é perfeitamente compreensível o apelo dos mangás Yaoi para o público feminino japonês, brasileiro e, na verdade, mundial! As relações homossexuais entre personagens homens transcendem os quadrinhos e permeiam o imaginário de fãs de todas as mídias, das séries (como bem sabe o público de Sherlock da BBC) aos livros (“Potter, vem cá dar um beijinho no seu Malfoy”), passando até pelo real person slash, que é tipo um Yaoi com pessoas de verdade.

Concluindo, se você já curte yaoi, ou se ficou curiosa, não tem com o que se preocupar. Isso não quer dizer que você é necessariamente gay ou que é uma tarada, nem nada do tipo. Significa apenas que você não se identifica tanto com as representações românticas e sexuais frequentemente mostradas na TV, no cinema e nos quadrinhos, que quase sempre replicam um monte de estereótipos de gênero e preconceitos. Além do que, se não tem nada de errado em um romance entre meninos, que mal tem em ler um mangá ou uma fanfic sobre isso, não é mesmo?

Caso esteja a fim de ler algum mangá yaoi, você pode adquirir a antologia brasileira Boy’s Love, da Editora Draco. Também já saíram no Brasil Gravitation (um grande clássico!) e Blood Honey, ambos da editora JBC. Além desses, temos Angel Sanctuary e Blood + Yakou Joushi, da editora Panini, Tarot Cafe, da NewPop e Tokyo Babylon (um dos meus prediletos), da JBC, que, apesar de não serem explícitos, abordam relações amorosas entre homens.

Finalmente, a internet tá cheia de traduções amadoras de mangás e animes Yaoi. Se jogar no Google as palavrinhas mágicas “Yaoi scanlation em português”, você já tem leitura pra mais de ano. APROVEITA, MIGA!

Laura Athayde
  • Ilustradora
  • Quadrinista

Laura Athayde é advogada por profissão e desenhista por teimosia. Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinhos. Participou de diversas publicações coletivas como o Zine XXX, Zine MÊS (outubro/14), o livro Desnamorados, Zine Amendoim e Acerca Zine, dentre outros. Lançou também dois zines individuais, Delirium e O Mundo é Um Jogo e Eu Só Tenho Mais Uma Vida, que podem ser lidos online em http://issuu.com/lauraathayde. Atualmente, desenvolve uma HQ longa de sua própria autoria em parceria com a Editora Tribo.

  • http://www.twitter.com/wild_pidgey Kaliandra Andrade

    eu
    me considero uma forte consumidora de yaoi (acho que meu avatar é até
    auto explicativo), eu basicamente só leio mangás yaoi há anos. e uma
    coisa que eu vejo na maioria deles, maioria ESMAGADORA, é o papel de
    gênero bem definido, aonde o uke, como bem sabemos, é a parte delicada a
    ser protegida, virginal etc etc e o seme, bem, vc sabe… isso no início
    pra mim era OK. eu comecei a consumir yaoi em uma época que parece meio
    “nublada” na minha memória, por volta de 2001 – 2003, e eu percebo que meu
    interesse inicial não tem absolutamente nada a ver com papéis de gênero
    ou representações românticas e sim porque minha mente sempre se atraiu por coisas
    “fora da curva” (exemplo besta, minhas primas gostavam de backstreet
    boys, como toda menina, e eu negava que gostava e falava que só ouvia
    banda de rock). homossexualidade sempre foi um assunto de interesse meu
    (começou com kurama e hiei, se solidificou como PEDRA CRAVADA com haruka
    e michiru) mas era um assunto proibido, era bem tabu em todos os
    lugares que eu convivia (família, escola..) então isso fazia ser mais
    atraente. quando eu descobri o yaoi… (o yaoi de vdd e não
    imaginação/ship) foi tipo “tudo o que eu precisava”. mas claro que com o
    tempo yaoi ficou problemático, afinal eu cresci e comecei a me
    incomodar muito com os papéis de gênero implícitos, “escondidos” (e umas
    narrativas bem ruins que, apesar de serem escritas por mulheres,
    diminuíam mulheres em função de impulsionar o relacionamento
    homossexual). mesmo assim eu continuava consumindo e continuava a buscar
    títulos que me fossem marcantes, mas quando li e assisti Love Stage percebi que é muito difícil achar um título grande que não tenha papel de gênero implícito. o artigo ficou muito legal mas infelizmente o yaoi não é livre de problemas relacionados à gênero. aproveito para dizer que minha autora favorita é a Miyamoto Kano, com lindas histórias de amor, maduras e que me marcaram muito. abraços!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos