12 de março de 2017 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
“You, me, her”: as nossas relações estão vivas

*****Contém alguns spoilers do primeiro e segundo episódio da temporada 1

“As relações, assim como as pessoas, estão vivas. E se transformam”. Ouvi essa frase da minha psicóloga. Eu não acho simples lidar com transformações. Por mim estaríamos sempre encaixadinhos em forminhas emocionais. As pessoas que amo ocupariam sempre os mesmos espaços dentro de mim e eu na vida delas.

A grande questão é que os afetos, quando amadurecem, conforme o tempo passa, começam a se rearranjar dentro da gente. As pessoas passam a compor outros cenários da nossa novela cotidiana. E é inelutável que as transformações cheguem, não só para nós, mas para todos aqueles que estão em nossa volta.

Estava pensando sobre isso quando comecei a assistir You, me, her. Foi inevitável, portanto, pensar a série a partir dessa perspectiva. You, me, her é uma série da Netflix que traz – ou pelo menos me trouxe – várias mensagens sobre esse tipo de sentimento ou medo.

Trata-se da história de um casal que está junto há mais de uma década, tentando ter filhos, mas  não conseguem. Além disso, a vida sexual deles está um pouco estagnada. Tudo muda no momento em que Jack (Greg Poehler) decide encontrar uma mulher que estuda Psicologia e é uma espécie de acompanhante, isto é, ela sai com as pessoas para ouvir seus problemas emocionais, mas sem fazer sexo com penetração com elas.

Jack a encontra e sente-se tocado emocionalmente. Ao contar para sua esposa, Emma (Rachel Blanchard), o que aconteceu, tomada por ciúmes e curiosidade, ela decide encontrar Izzy (Priscilla Faia) e ver de perto por quais razões seu marido ficou tão mexido. O que acontece a partir de então é um envolvimento triplo e muitas questões vêm à tona, no que diz respeito a lidar com as mudanças que ocorrerão a partir de então.

Além de problematizar a sociedade e o quanto as relações monogâmicas são colocadas como padrão, sem abrir muito espaço para outras formas de relacionamento, imputando a quem vive outras formas de amor(es) a pecha de “anormal”, bem como desmistificar a bissexualidade, acredito que a série possibilita pensar também em um amor que permanece, mesmo quando tudo muda ao redor.

Quando Jack e Emma notam-se interessados em uma terceira pessoa, a pergunta que os atormenta a princípio é: “mas como, se eu amo meu (minha) companheiro (a)? ”. Notar que é possível amar uma outra pessoa e até inclui-la em um relacionamento estabelecido há tanto tempo, faz parte de perceber a possibilidade das mudanças. E sobretudo de aceitá-las.

Jack e Emma não se amam menos, mas se permitem nesse novo encontro da vida, vivenciar outros momentos. Esses novos sentimentos que brotam dão dinamismo à relação deles, uma relação até então que se encaixava nos padrões tradicionais, fortalecendo-a. E isso não diz necessariamente respeito à Izzy. Ainda que haja um sentimento diferente e uma pessoa diferente entre eles.

É notável o tempo todo o quanto há reciprocidade na relação entre Jack e Emma. A questão é o que muda e o que fica a partir do momento em que aceitam essa terceira pessoa. É tocante perceber o quanto esse envolvimento triplo acontece de forma honesta. Os ciúmes, os medos, as dúvidas, inclusive a resistência em aceitar Izzy e construir uma nova relação dão o tom da série, tornando as confusões que aparecem muito humanas. Humaniza-se os medos e os sentimentos que podem brotar quando eles não apenas se propõem a ter uma relação que foge às regras tradicionais. O que eles estão se propondo, para além disso, é aceitar que ainda que exista amor, o amor pode tomar diferentes formas durante a nossa vida.

Essa mensagem transmitida pela série é muito sensível. Em um momento no qual pode soar assustador pensar em uma vida ao lado da mesma pessoa por muitos anos ou que as relações se dão de forma mais efêmera, muitas vezes por medo de que ao estar do lado de uma mesma pessoa, possamos perder parte do que poderíamos viver de diferente ou de novo, saber que há a possibilidade de redescobertas e permanência em um mesmo amor soa libertador. E não necessariamente por envolver uma nova pessoa no relacionamento, a liberdade está na construção desse amor cheio de compromisso, reciprocidade e honestidade.

Foi vendo a primeira temporada de You, me, her que eu comecei a entender que por mais que haja transformações em nossas relações, o mais importante é que algo ainda esteja lá: o afeto e o respeito por si mesmo e pelo outro.

Então não importa muito o quanto nossas amigas se transformem, nossos pais ou irmãos mudem, se estaremos em escolas ou faculdades diferentes daquela amiga que nos acompanhou a vida inteira ou se eu e meu (minha) companheiro (a) vamos nos apaixonar por uma mesma pessoa e viver essa relação, como ocorre na série. O que importa é que o amor continue sendo servido e que haja satisfação e alegria em vivenciá-lo.

Faz parte da permanência, isto é, de continuarmos na vida de alguém e desse alguém continuar na nossa vida, que as modificações ocorram. E ainda que assuste e possa ser dolorido notar o que mudou, é preciso usar lentes novas. Ao invés de tentar enxergar as transformações com o olhar passado. Porque, como dito acima, não só estamos vivos, nossas relações também estão. É o afeto e o companheirismo permanecendo que podem sustenta-las, mesmo que tomem outras formas.

 

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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