24 de outubro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Gostar de todas as pessoas: não somos obrigadas, ninguém é.

Gostar. Esse é um verbo facilmente conjugável nas nossas vidas. A gente gosta de tantas coisas e de tantas pessoas. Desde aquelas pessoas que, a princípio, tínhamos alguma resistência, mas foram nos conquistando aos pouquinhos até aquelas que de cara, no primeiro encontro, já adoramos, passamos horas conversando e temos a sensação maravilhosa de que nos acompanhará por um longo período. E se não acompanharem, as primeiras conversas ficarão guardadas com enorme carinho dentro de nós.

Tem também aquele tipo de pessoa que nunca falamos profundamente. Que só nos dá bom dia no elevador ou que é amiga da amiga da amiga, mas ainda assim tem uma energia tão gostosa que nos sentimos contaminadas/os só pelo oi que damos no corredor. E como é boa a sensação de que se nos abrirmos para o mundo, ele pode ir nos surpreendendo com essas pessoas tão lindas de conviver ou de sabermos que existem.

Mas não é sempre assim…

O bicho pega mesmo é quando a gente nunca deu oi e alguma coisa dentro de nós já foi acionada, criando uma resistência que não quer ser quebrada. E têm aquelas pessoas que tentamos conviver porque são do mesmo círculo de amigas/os ou são da nossa família e ficamos horas – dias, semanas ou meses – nos esforçando para entender porque o verbo gostar não está sendo conjugado, mas por mais que tentemos não tem mágica que funcione. Não gostamos e pronto.

E o que fazer diante disso?

Não vou dizer que é uma questão fácil de lidar. Na verdade, às vezes temos uma dificuldade enorme de saber como nos comportar diante do desgostar, não-gostar, ter raiva ou não ter a menor empatia. E esses sentimentos podem surgir dentro da gente por diferentes motivos. Às vezes, a gente não gosta da pessoa porque ela já nos fez mal ou fez mal a alguém que é importante para nós. Outras vezes porque as energias não se batem. Porque a visão política/ideológica é muito discrepante. Ou ainda porque nos sentimos desrespeitadas por algo que a pessoa faz.

Se começarmos a fazer uma lista, há tantos motivos para não gostarmos de alguém como para gostarmos. Logo, não deveria ser tão impactante lidar com essas sensações. A grande cilada quando estamos diante de um sentimento assim é tentarmos nos forçar a conhecer e a gostar, pois afeto não nasce na cobrança, nem forçando a barra. Um dos melhores aprendizados talvez seja percebermos que nem sempre conviveremos com pessoas que nos agradam. E tudo bem.

Podemos andar com um grupo de dez pessoas, gostar de estar ali, mas só sermos mesmo amigas/os de três delas. Próximas de quatro. Conviver com duas porque são engraçadas, mas não gostar de uma delas. E quer saber? Deveria estar tudo bem não gostarmos de uma ou outra pessoa. Isso só não abre espaço para destratarmos ou sermos grosseiras/os apenas porque aquele ser existe.

Aprender que não precisamos gostar de todo mundo, que não devemos nos forçar a ter um convívio com alguém que nos contamine não de alegria, mas que seja um bocado tóxica, fazendo-nos sentir mal, abre espaço para outro aprendizado muitíssimo importante: ninguém é obrigado a gostar da gente também!!!!

É isso mesmo…

Se não é fácil lidar com o fato de não gostarmos de uma ou outra pessoa, nosso ego também pode ser bastante afetado quando deparamos com quem não gosta da gente. Parece uma afronta a nossa existência: eeeei, sou muito legal, nunca te fiz nada, por que você não gosta de mim?

Em uma cabecinha ansiosa como a minha, esse tipo de pergunta já gastou bastante meu tempo. Assim como questões do tipo: será que foi algo que eu fiz? Pode ter sido aquele dia que eu estava comendo um sonho de valsa e não ofereci um pedaço? Meu atraso na última reunião? Eu fui pouco sensível? Mal educada?

Podemos até formular milhares de perguntas e tentar achar em nós o motivo para o desagrado da outra pessoa, mas as respostas podem ser apenas minhocas que estão sendo criadas e alimentadas em nossas cabeças, pois o sentimento, dessa vez, é do outro e não nosso. Se nem sempre temos claras as respostas do nosso não-gostar ou não-querer, como poderíamos achar a resposta para o fato do não-gostar de outrem?

Cada pessoa é um universo tão complexo de questões, paixões e dissabores, nós nunca vamos saber a resposta de qual é o motivo para não agradarmos uma pessoa x. O que podemos mesmo fazer é desapegarmos da ilusão que poderemos ser queridas por todas as pessoas que nos cercam. Afinal, nós também não queremos bem a todas elas.

E nenhum desses casos deve nos afetar tanto negativamente.

Precisamos aprender a ser um pouco indiferentes a essas situações, porque mais cedo ou mais tarde essa pessoa que não gostará de nós – ou que nós não gostaremos – aparecerá. Em alguns casos, podem até ser pessoas que podemos fugir do convívio, mas e nos casos em que a pessoa estuda com a gente ou trabalha no mesmo setor?

Aí não vai ter fuga. Por isso pode ser interessante treinarmos esse aprendizado desde cedo, logo que pudermos. Trabalhar essa indiferença não significa necessariamente nos fecharmos para o diálogo ou ignorarmos totalmente a outra pessoa. Em alguns casos, uma conversa pode acontecer e podemos pelo menos travar um convívio saudável. E quem sabe quebrar as resistências. Por outro lado, tentar estabelecer um diálogo também pode ser frustrante, desgastante e só nos deixar pior.

Porque não há fórmulas de como as relações humanas devem acontecer. Mesmo o diálogo que costuma ser colocado como a forma máxima de resolução de conflitos, pode não funcionar. Além disso, é muita ilusão acharmos que podemos viver em um mundo sem conflitos, porque os conflitos também nos constituem como seres humanos. E todos nós temos um lado mais briguento, raivoso e malvadinho.

A questão é mudar o foco, se há mil pessoas que adoramos, mil e uma que nos adoram, dez que desgostam da gente e uma de quem temos ojeriza, por que a gente vai manter o foco nas onze que causam incômodo por dentro?

Como uma grande amiga sempre me diz: os problemas têm a dimensão que damos para eles. Aos poucos, podemos aprender que pensar demais, questionar demais nossos sentimentos ou os sentimentos alheios pode ser alimento de frustrações constantes. Portanto, o melhor a fazermos de vez em quando é mudar a perspectiva e olharmos as situações de uma nova forma: foco em quem nos contamina só com o bom dia, nas pessoas que amamos e em quem nos faz bem. Os outros a gente vai deixando que as emoções se construam da forma mais natural possível, sem forçar a barra, sem obrigações que só existem na nossa cabeça, porque a verdade máxima é que não somos obrigadas/os! Ninguém é.

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

  • http://www.flightsanddreams.com/ Nizer

    Eu estava precisando disso. Obrigada.

  • Ivis

    Amei seu texto…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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