7 de dezembro de 2015 | Ano 2, Edição #21 | Texto: | Ilustração: Marina Sader
Nossa potência

Todo mundo tem dentro de si uma energia implorando para explodir. Ela fica bem no centro do peito, pulsando como nosso coração. Ela está lá todo dia, toda tarde, toda noite, toda madrugada. Ela está o tempo inteiro dentro de nós, crescendo como uma maçaroca disforme, aumentando como se fosse um ser vivo, se espalhando pelo nosso corpo como uma epidemia.

Todo mundo tem essa energia, mas não necessariamente percebemos isso. É porque nunca contam pra gente que temos isso em nós. Então, só sentimos um grande desconforto no peito, sem entender direito. Tem vezes que parecer coração quebrado, pressão dos outros, inquietação com o mundo, falta de lugar na sociedade. Não se deixe enganar: tudo isso é sintoma, e todas nós os temos. Mas essa maçaroca borbulhante no peito não é isso. Ela não é medo ou revolta, essa maçaroca é nossa maior e mais potente energia, é o nosso poder, nosso potencial.

Não sei se você já estudou potência em física, mas a teoria diz que uma máquina nunca chega na sua potência total, porque parte da energia para o trabalho se dissipa durante o processo. Então, no fim das contas as máquinas têm sempre uma potência ideal (que é o potencial total da máquina) e uma potência útil (que é o quanto a máquina realmente consegue produzir, considerando essa energia dissipada). Existem fórmulas e mais fórmulas para se calcular cada um desses números, podendo variar tempo, energia, potência, atrito etc. etc. etc.

Acontece que eu não passei em física no colégio e, aqui, estamos falando de humanos, então vamos deixar as fórmulas e os números pra lá. O que importa é a potência. Copiando da Wikipédia (peço perdão a todos os professores que me disseram para nunca fazer isso na vida):

“potência é a grandeza que determina a quantidade de energia concedida por uma fonte a cada unidade de tempo. Em outros termos, potência é a rapidez com a qual uma certa quantidade de energia é transformada ou é a rapidez com que o trabalho é realizado.”

Isso ainda é física. Humanos não são exatamente máquinas como uma lava-louças, então não podemos usar um estudo que se foca em objetos inanimados e letras gregas para nos definir. Mas nós, humanos, também temos potência. E, de certa forma, ela é parecida com essa teoria toda, por mais esquisito que isso pareça.

Como disse antes de entrar em teorias usadas para nos testar no vestibular, todo mundo tem uma maçaroca dentro do peito. Essa maçaroca é nossa potência ideal. Nela, se concentra tudo o que podemos fazer, toda a força que temos, toda nossa energia. Todas as nossas vontades, nossas possibilidades, nossas grandezas estão ali.

Enquanto vamos crescendo, passamos por milhões de situações que nos ajudam a nos moldar, a nos entender melhor e a decidirmos o que queremos ou, pelo menos, o que não queremos da vida. Essas experiências e esses novos conhecimentos vão se somando dentro da gente, mas não necessariamente como as fórmulas de física.

Tudo o que pensamos, sentimos, vemos, acreditamos, vivemos, gostamos, desgostamos, criamos etc. faz parte de quem somos. Mas acontece que isso não é uma somatória. Honestamente, eu não tenho a menor ideia de que conta maluca é essa que resulta em um Eu. Tem soma, divisão, subtração, multiplicação e provavelmente outras contas malucas que só no doutorado de matemática que se descobre a existência. Mas não contam isso pra gente. O que contam é que nós podemos ser a nossa melhor versão e que essa melhor versão está dentro de nós, basta a encontrarmos.

Mas dentro de nós não tem nossa melhor versão. Dentro de nós tem ossos, sangue, gordura, órgãos e uma maçaroca que não entendemos o que é. Nós não conseguimos vê-la ou pegá-la, mas a sentimos todos os dias, todas as tardes, todas as noites, todas as madrugadas. Ela é a nossa energia. Mas não a energia de levantar e ir pra escola às seis da manhã, ou a energia de ficar em pé no ônibus lotado depois de um longo dia de tarefas, ou mesmo a energia de correr 1km em sei lá quanto tempo. Essa energia é a vontade de fazer as coisas, é uma energia que está se acumulando e que pode ser algo incrível, sim, mas só quando fizermos algo a respeito dela.

Só que é muito difícil fazer algo a respeito disso quando não sabemos o que está acontecendo, quando simplesmente temos esse sentimento de engasgo dentro do peito 100% do nosso tempo e não conseguimos explicar isso a ninguém. É aí que vem o maior problema. Sem saber o que está acontecendo com a gente, nós temos duas opções:

  1. Acreditar que o problema é outro, um problema que sabemos que existe porque os filmes e os livros nos contaram – como se sentir inadequada, estranha, não saber ser amar ou ser amada etc.;
  2. Entrar em pânico e tentar destruir esse sentimento confuso.

Por muito, muito tempo, acreditei que meu problema era me sentir uma estranha. Minhas amigas diziam que era esse meu problema e que eu precisava enfrentar o medo de não pertencer. Uma das minhas melhores amigas me disse que eu tinha que ignorar meu mal-estar e continuar num grupo de amizades que me fazia mal porque meu problema era me sentir inadequada. Exemplificando o ponto 1.

Por muito, muito tempo, meus amigos me disseram que eles bebiam e se drogavam toda semana porque eles se sentiam bem assim. Eram muitas noites passando mal em banheiros de desconhecidos, se sentindo muito mal no dia seguinte, indo pra escola sem ter dormido uma hora sequer. Exemplificando o ponto 2.

Hoje em dia, entendemos que todos nós tínhamos o mesmo medo. Não era o medo de ser inadequado, o medo do futuro, o medo de amar ou ser amado – por mais que, de certa forma, tudo isso entre um pouco no pacote. Nosso maior medo era (e ainda é) não respondermos ao nosso potencial.

Dentro de cada um de nós, todos nós, do mundo inteiro, tem algo muito grande. É essa energia que cresce. E cada um de nós, todos nós, do mundo inteiro, quer fazer algo com ela. Mas ela é tão grande que assusta. Mexer nessa maçaroca, moldá-la, tirá-la de dentro do peito e fazê-la transbordar pelo mundo inteiro não é tarefa fácil. Isso significa olhar no fundo da gente, encarar todas as incertezas que temos, todas as inseguranças e enfrenté-las. Não necessariamente vencê-las, mas definitivamente ultrapassá-las – e, então, fazer aquilo que queremos, que gostamos, que nos motiva, atingir o nosso potencial.

É que potencial é energia dividida por tempo. E, amiga, por mais tempo que tenhamos no mundo, nossa energia é sempre maior, ela é infinita. O que temos dentro de nós ultrapassa todas as barreiras, e isso não precisa ser um problema, isso não precisa nos dar medo. Porque, sabendo disso, nós podemos olhar para dentro de nós, nos entender e falar “eu dou conta disso, eu dou conta de mim”. Essa energia que está em nós, nosso potencial são também nosso poder. E nós podemos tudo, desde que construamos isso.

Esse ano, aprendi que nosso maior medo não é se sentir inadequado, mas sim que é sermos poderosos além do que podemos medir. Mas se pegamos esse poder que temos e criamos coisas com ele – qualquer coisa: pode ser relações, obras de arte, máquinas espaciais –, pode ter certeza: tudo vai ficar bem.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Patricia Cunha

    Gente! Seu texto veio simplesmente no melhor dia! Obrigada! <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos