11 de outubro de 2014 | Edição #7 | Texto: | Ilustração:
Oráculos e laboratórios
Ilustração: Clara Browne.

Ilustração: Clara Browne.

Homem e mulher, dia e noite, preto e branco, quente e frio, natureza e cultura, magia e ciência. Muitas vezes pensamos o mundo em oposições, entretanto, é uma forma superficial e maniqueísta de entender essa complexidade que habitamos. Qualquer um que já experimentou o horário de verão sabe que dia e noite não são tão separados assim – o pôr do sol é o quê? Um momento onde os dois estão misturados, se complementam, e não necessariamente se opõem. E homens e mulheres, será que somos tão diferentes assim mesmo? Mulheres totalmente femininas de um lado e homens masculinos de outro? Acho que já falamos disso por aqui vezes o suficiente para saber que não. Que na verdade somos bastante parecidos e dividimos várias experiências. Além disso, já falamos aqui também que não tem problema nenhum uma menina ter características ou atitudes que sejam em geral entendidas como masculinas e vice-versa. Só porque uma coisa é “em geral entendida como”, não significa que é e nem que precisa ser.

Agora, no caso de magia e ciência pode parecer um pouco mais difícil de ver onde estariam as semelhanças. Mas acho que podemos entender como duas formas de ordenar o mundo, como se houvessem dois grandes quadros através dos quais a gente pudesse dar sentido para as coisas, duas lógicas diferentes. E nem tão diferentes assim, já que têm elementos em comum. São maneiras de explicar o que nós vemos, sentimentos e fazemos.

São sistemas de crença. Não estou dizendo que a ciência (A Ciência!) não tem uma parte objetiva, claro que tem, a medicina realmente cura muitas pessoas e esses prédios gigantescos ficam de pé através de muitos cálculos. Só que também tem um elemento de fé. Além dos cálculos e pesquisas a gente precisa acreditar que os prédios vão ficar de pé, que os médicos curam doenças, que os biólogos classificam os animais, que os carros andam. Pensa só, se ninguém acreditasse, não ia funcionar, né. Aliás, a gente acredita tanto que nem precisa saber como funciona para acreditar. Você sabe como sua TV funciona? Quais são os princípios que fazem um avião ficar lá em cima? Eu não sei!

Claro que existem vários tipos de magia e estou fazendo uma generalização bem grosseira (e até um pouco etnocêntrica: tudo que não é ciência, que é prezada pela minha sociedade, é magia).

Mas vamos pensar num Azande, lá na sua tribo na África central, consultando o oráculo para saber quem o está enfeitiçando. Ele não sabe como o oráculo funciona, só sabe que dá a resposta pra pergunta que ele faz. Ele descobre a resposta e reorganiza suas ações a partir daquilo. Um Azande está acostumado com magia e acharia estranho viver num mundo sem ela. Da mesma forma, estamos acostumados a achar nossas respostas na ciência, a ter ciência nas nossas casas e utilizá-la na nossa rotina. Estranho seria se ela não estivesse lá.

Os Azande procuram suas repostas nos oráculos, nós nos laboratórios, mas isto não significa que um tem uma resposta correta ou melhor que a outra – são interpretações diferentes. Quando uma frase começa com “isto foi cientificamente comprovado” já olhamos para ela como? Como uma verdade. Sem nem saber que muitas vezes o que é feito dentro de um laboratório é feito de forma confusa, por tentativa e erro, contrariando a própria lógica racional que fundamentaria nossa crença nessas verdades.

Nós estamos acostumados com um mundo de tecnologia e ciência, com nossas redes invisíveis no ar por onde falamos com nossos amigos, mandamos imagens que são uma réplica do que estamos vendo (#nofilter, no caso) e até sequências inteiras do que estamos vendo simultaneamente enquanto acontece. Tudo isso através de um pequeno retângulo que nós carregamos o tempo todo pra onde quer que a gente vá, como um amuleto. Opa, estou falando de magia ou de ciência agora?

* Essa matéria contém referências ao livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande, de Evans-Pritchard e também Vida de laboratório, de Bruno Latour.

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Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

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